Artigo do professor Mosart: Nossa Senhora das Mercês e Cajapió: quase 200 anos de uma história inseparável

Nossa Senhora das Mercês e Cajapió: quase 200 anos de uma história que não se pode contar separadamente. Uma história permeada por lendas e mitos, na qual cada uma das ‘raças’ que habitavam esta terra no século XIX contou e enfeitou os acontecimentos do jeito que achou melhor… E, assim, acabou nos jogando em conexão direta com a história do Brasil em ebulição do século XIX.

Imagem da padroeira de Cajapió

As gerações atuais não podem imaginar os causos e percalços pelos quais passaram a história de Cajapió e a fé católica. (Mais detalhes em Cajapió: Aldeia, Vila e Cidade.) […] Num dia de sol, nos idos de 1800, aportou discretamente no Porto dos Frades, na cidade velha, aquela que seria a futura padroeira de Cajapió. Arranjos vinham sendo costurados entre a já em declínio Ordem das Mercês e o interesse pessoal do filho desta terra, Dom Luís de Britto, (registrado como nascido em São Bento).

A imagem de Nossa Senhora das Mercês tomou de espanto a todos quantos dela se aproximavam […]. Era humanoide demais: cabelos humanos de verdade, mãos que se entalhavam como as mãos de uma matrona. Vestia-se de ofício: vestes brancas, próprias da Ordem — não cabendo outra cor. Tinha braços articulados, nariz afilado, olhos com profundidade e vitrificados.[…]

Chegou de navio a vapor, o mesmo navio que seria o túmulo final do poeta maranhense Gonçalves Dias. A ilustre cajapioense vinha para libertar o povoado e garantir-lhe o título de Vila. Os habitantes daqui não suportavam mais serem governados pela Câmara de Alcântara ou por seus bem mandado administradores de São Bento.

Nesse contexto, vigoravam as Ordenações Filipinas e não existia Vila ou cidade sem que existisse uma Igreja Católica para ordenar a vida civil. Estado e Igreja eram um só. Registravam a vida do nascer ao morrer. […]

A festa foi bonita e inesquecível. Nesse dia, não foi permitido nenhum tipo de castigo aos cativos; não se permitiu a ninguém ir ao mar. Dos mais poderosos e ricos aos mais pobres e decadentes, todos prestaram reverência à recém-chegada moradora e primeira cidadã. Era o símbolo de independência e liberdade. Ou a própria possibilidade para aos poderosos locais de fazerem a sua própria tirania. […]

Cajapió agora alçava-se ao título de Vila e ensaiava-se a cidade. Construíram-se a cadeia pública, e os ‘homens bons’ agora poderiam se reunir em Câmara de vereadores, fazer as próprias leis e decidir sobre o destino da Vila. […] Marcou-se o lugar para se levantar o pelourinho: a Praça da Matriz. Mas nos livramos dessa vergonha graças à influência de Dom Luís de Britto, que, no Rio de Janeiro, era contíguo à princesa Isabel e, juntos, já estavam em campanhas pela abolição.

Dessa forma retardou-se a construção em Cajapió até que o sistema de escravidão já não mais se sustentava. Se houvessem erguido um pelourinho aqui, este seria o último do Brasil, pois já estávamos em 1876 quando o documento de formalização de Cajapió saiu. A apenas 12 anos da ‘abolição’ e já deixando para trás a Lei do Sexagenário e a Lei do Ventre Livre. […] A imagem da padroeira de Cajapió é um exemplar máximo do Decreto sobre a Invocação, Veneração e Relíquias dos Santos, e sobre as Sagradas Imagens, promulgado na Sessão XXV do Concílio de Trento, em 1563. Era o contexto da Contrarreforma.

Os indígenas a achavam próxima demais deles, pois os cabelos, apesar de vindos da Espanha, eram ‘amorenados’. Não demorou muito até que o imaginário popular tomasse conta do resto.

Essa imagem seria viva? — diziam eles.

Outros ainda afirmavam:

— Se furar, pode até sair sangue.

Os exageros eram frutos da imaginação fértil e do fervor daqueles que se aproximavam dela.

Do século XIX até os dias atuais, os Festejos da Padroeira iriam movimentar a Vila e a Cidade. A massa de indivíduos que vinha a Cajapió não se podia contar. Não havia espaços nas ruas, nas praças, na igreja. A própria imagem peregrina da padroeira apertava-se em meio ao comércio que se erguia na avenida, espremendo-se a procissão, e misturando-se o sagrado ao profano.

[…] Pintavam-se casas ou reformavam-se as existentes à espera do festejo. Roupas novas, em Cajapió, compravam-se em setembro. Do calçado aos batizados. Tudo era setembro… […] Mas a fé segue, continua… Se redesenhando a cada nova época, a cada nova época. Do sopro que compunha o Bom dia da festa das Mercês, na segunda metade do século XIX, que deixou saudosos a geração dos meus avós, a grandiosidade das festas de massa sem iguais promovidas pelo então padre Cícero Carlos, tudo importa e tudo é história que se mistura com estórias.

O que existe é marcha do tempo. Seguindo…

 (Mais detalhes sobre a história de Cajapió estarão no livro Cajapió: Aldeia, Vila e Cidade, que pretendo lançar no próximo ano).


Cajapió – Maranhão, 24 de setembro de 2026

Professor Mosart Soares
Servidor Público
Historiador
Graduado Letras e Pedagogia
Ensaísta
Palestrante
Escritor

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