Artigo de João Carlos Costa Leite: Morte, um mistério indecifrável.

Há algum tempo sou acometido de vontade em escrever sobre um fundamento que é tabu desde que nos entendemos como dotados de razão e sentimentos, a morte. Embora corriqueira, é cercada de mistérios, crendices, superstições, que extrapolam culturas, civilizações, conhecimentos, dogmas, religiões, etc. É um axioma: todos morrem. Nada conhecido foge a essa regra, vaticínio, premissa, só mudando o ciclo, de uma a vinte quatro horas da efemérida, ou mosca de maio, a bilhões de anos de uma estrela ou Galáxia. Cientistas supõem que até o Universo um dia chegará ao fim.

Escritor matinhense fala sobre o fenômeno

Tema árido, inóspito, arraigado, lembrado com tristeza, dor, desespero, desalento, profunda reflexão, merecedor portanto, de análise. Já incursionei por ele em crônicas, louvando amigos(as) que saíram deste plano, deixando a marca indelével de suas presenças em mim e na comunidade. Outro registro importante foi o “Obituário Matinhense”, preparado logo quando comecei a lidar com textos, talvez o primeiro ou segundo trabalho, nunca postado em blogues ou coletâneas. Nele homenageio pessoas que conheci durante os meios séculos – a época – vividos, que já haviam falecido.

Foram muitos nomes, mais de trezentos -não me atrevi a contar -, todos(as), em algum momento, de algum modo, mantiveram contato comigo. Possui uma característica interessante, quase despercebida: apenas menciono mortos, o único vivo em toda a narrativa sou eu. Aliás, por isso muitos não foram citados, uma vez que a referência do finado(a), desaguava em alguém ainda vivo. Oriunda do grego Thánatos, a morte, de igual modo como o diabo, acumulou ao longo da história, diversas denominações, epítetos. Aludidos, referidos, como forma de mitigar, subverter, suavizar, esse instante.

Óbito, falecimento, passamento, sair do mundo de pés juntos, bater as botas, ir pro mangal de Arlindo – só utilizado em Matinha -, descer ao Hades, fenecimento, perecimento, encontrar-se com Deus, falar com São Pedro, Partir pra glória, estar no seio de Abraão, descansar no Senhor, descansar nos braços do Pai, fazer a transposição, comer capim pela raiz, ficar debaixo de sete palmos, ir pro céu, passar desta pra melhor, esticar a canela, abotoar o paletó de madeira, partir pro andar de cima, cumprir sua missão, ir ao encontro do Criador, atravessar a terceira margem do rio.

São algumas das muitas definições que” este fim definitivo e irreversível das funções vitais de um organismo, caracterizada biologicamente pela cessação da atividade cerebral, dos batimentos cardíacos e da respiração” como tecnicamente o acontecimento se apresenta. Além do conceito técnico, padrão, formal, concreto, trata-se de um princípio abstrato universal, que alcança a percepção de tempo, a filosofia, a sociologia, a metafisica, a religião. A separação, a mudança de um estado pra outro, sempre foi motivo de culto, reverencia, louvação, exéquias.

Escritor João Carlos

 

O ser humano, notadamente no contexto místico, a ver como uma travessia, que resultaria retorno, volta, regresso, ou chegada num novo, celestial mundo. O que é a morte? Para onde vamos depois desta vida? Haverá vida após a morte? Se houver, como será? Teremos um corpo novo? Esse corpo será igual ao anterior? A alma é imortal? Ela realmente existe? As três principais religiões monoteístas da terra, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, chamadas de Abraâmicas por reconhecerem o patriarca Abraão como figura importante de suas crenças, apresentam respostas sobre as perguntas elencadas, bem como de muitas outras.

Os evangelhos neotestamentários, segundo Mateus, Marcos, Lucas e João, que falam naquele que nós cristãos cremos como o Salvador, Jesus Cristo, abordando sua vida, morte, ressurreição e assunção aos céus, testificam e dão base pra nossa Fé. Nas religiões não monoteístas, a celebração também existe. Manifestando -se em rituais, dos mais diversos tipos, duração, modelo, forma. Em algumas culturas, demostrando tristeza absoluta, em outras, alegria incontida. Creem numa vida futura. Um céu, paraíso, nirvana, espera o fiel que durante esta vida, fez por obter o justo merecimento.

Outras admitem a reencarnação por ciclos, espécies, mundos distintos. Os ateus alegam ser esta uma única jornada, e que com a morte cessa toda forma de vida. Os agnósticos, seguindo a linha da não verificabilidade da existência de Deus, espirito, alma, dizem a mesma coisa quanto a vida após a morte. Na filosofia não há consenso desde os pré-socráticos. Demócrito, observava na morte um dispersamento de átomos, que formariam novos seres; Heráclito de Éfeso, o fim de um é o nascimento de outro, morte e vida são complementares; Empédocles e os seguidores de Pitágoras de Samos, influenciados pelo misticismo, consideravam a transmigração das almas.

Para Sócrates, não deveria ser temida, sua chegada permitiria atingir a verdade pura; Platão, seu maior e mais famoso seguidor, primava do mesmo pensamento, com uma diferença fundamental, enquanto o mestre a olhava como algo sem significância, o discípulo, dava grande importância, anunciando ser a alma imortal, crendo fortemente na reencarnação.

Aristóteles rejeitava a reencarnação ou qualquer tipo de vida após a morte; para Santo Agostinho, tratava-se de uma passagem transitória, e não o fim da existência; Tomás de Aquino entendia como separação natural entre a alma e o corpo; Immanuel Kant, uma transição e o limite da nossa razão pura, mas não o fim de tudo; René Descartes, a separação entre duas substancias essencialmente diferentes: corpo e alma, sendo o primeiro finito, e a segunda imortal; Friedrich Hegel, a visão não de um fim absoluto, mas como motor da vida e da evolução; Jean Jaques Rousseau, a libertação da alma das amarras físicas e terrenas; Karl Marx, não se preocupava com o sentido de finitude, entendia que deveríamos lidar com a vida; Friedrich Nietzsche, um evento natural, precisava ser integrado ao ser. Rejeitava o além, vida vindoura.

Seguindo o aforismo marxiano de que a história sempre se repete, hodiernamente, alguns bilionários, colocam seus corpos mortos num estado de suspensão, – criônica -, polêmico processo de preservação de cadáveres em baixa temperatura, frequentemente enxergado como pseudociência, objetivando ressurreição no futuro, situação idêntica ao que faziam a milênios civilizações antigas, por exemplo a egípcia, que os embalsamavam. O que foi escrito, é só um pequeno resumo das nuances contidas num tema que assombra, espanta, horroriza, ao mesmo tempo, contraditoriamente, é tão íntimo da humanidade.

Um fenômeno cercado de enigmas, eventos incompreensíveis, e situações não respondidas. Apesar da multiplicação da ciência, esse mistério indecifrável, ainda é melhor entendido no campo da religiosidade, do misticismo e talvez nunca seja definitivamente, completamente deslindado.

João Carlos da Silva Costa Leite, nascido em Matinha, bancário aposentado, cursou Filosofia na UFMA. É membro do FDBM -, Fórum em Defesa da Baixada Maranhense e da AMCAL – Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras, ocupando a cadeira 17, patroneada por Maria José da Silva Costa Leite.

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