Em cinco de fevereiro de 2026, aprouve a Deus buscar meu grande amigo Aristóteles, o popular Aristóteles de Belas Águas, figura que se tornou famosa em Matinha e adjacências. Nascido Aristóteles Ferreira Araújo, na cidade de São João Batista, em 01 de julho de 1967, filho de Manuel Costa Araújo e Maria Nazaré Ferreira Araújo. Casal que doou ao mundo uma prole de nove rebentos, cinco mulheres e quatro homens.

Tratado em terras joaninas como Totozinho de Nazaré, mudou-se pra Matinha, creio que no início de 2000, construindo um legado de amizades e um histórico recheado de polêmicas. Convivi intensamente com ele durante esse tempo. Notadamente, em períodos de eleições, que como todos sabem, ocorrem de dois em dois anos, mobilizando quase 100% da população. Apaixonado por política, acalentava sonho não realizado, tentado várias ocasiões: eleger-se vereador por Matinha. Lugar que segundo relatos de familiares ditos a mim pelo próprio, amava intensamente, desejando ter morada eterna em seu solo.
A partir das eleições municipais de 2004 fez-se presente efetivamente no município, colaborando, participando, disputando votos, se envolvendo nos conflitos decorrentes dos pleitos. E olha, quem conhece a Baixada e principalmente nosso torrão, sabe do grau de enfretamento, refregas, violência, beligerâncias, ocorridas nessa época. Na Terra da Manga, o Totozinho, transformara-se em Aristóteles da Belas Águas, cognome homenageando um povoado, as margens da MA 014, distante da sede sete quilômetros, que adotou pra si.
Por esse nome o conheci, assim todos a ele se referiam, assim adorava ser chamado. Por causa de eleições, estreitamos nossas relações, passamos a nos ver mais amiúde, sempre tendo a política como pano de fundo. Havia me afastado do BEM, Banco do Estado do Maranhão, devido a LER/DORT, e necessitava, em função de pericias e exames, viajar frequentemente a capital. Aristóteles transportou a mim e meus familiares em inúmeras oportunidades no percurso Matinha São Luís e vice versa, sempre respeitoso, afetuoso, solicito, demostrando solidariedade.

Foram muitas campanhas: Municipais, 2004, 2008, a partir do ano de 2012, com a minha saída da cidade, ficamos um pouco distantes; nacionais, presidente, governador, senador, deputados, 2006, 2010; em 2014, já não estava mais morando em Matinha. Em 2004, com Alfredo Mendonça, perdemos; 2008, candidatura de doutor Emanoel, ganhamos; 2006 e 2010, apoiamos Chico Gomes, ajudamos a levar o baixadeiro, nascido no lugarejo Roma, Matinha, – depois prefeito de Viana -, a Assembleia Legislativa do Estado. Em 12, quando Beto Pixuta venceu; passando por 16, primeira eleição de Linielda; 18, êxito do genocida golpista, 20, segundo triunfo de Linielda, 22, conquista de Lula; e 24, Nilton prefeito.
Todo esse ciclo, foi considerado um grande, valioso, inestimável, indispensável amigo. Em meados de 24, retorno ao município, depois de morar 12 anos em São Luís. Ari já não era mais o mesmo, estava acajibado, debilitado, padecendo comorbidades. Isso não mudou em nada o carinho reciproco. Quando nos reencontrávamos, um abraço forte selava aquele momento. Fui com ele em reuniões com deputados, deputadas, secretários, secretarias, assessores de órgãos estaduais, federais, autarquias, etc,, eventuais candidatos(as) Extremamente desenvolto ao lidar com a classe política, conseguia – não sei como – domínio sobre estes.
Mesmo sem estudo formal, possuía um jeito cativante, uma lábia, manha, elogios fáceis, derrubava até avião. Direto, inteligente, eficiente, quase sempre recebendo resultados positivos ao que pleiteava. Nossas conversas ao telefone eram memoráveis, inenarráveis, longas, eivadas de comentários gostosos. Com o advento do WhatsApp, refluíram as ligações, para o domínio dos áudios. Diabético, hipertenso, fora do peso ideal e adepto do sedentarismo, não se preocupava com a saúde.

O resultado foram episódios hiperglicêmicos, hipertensão constante, que com o passar dos anos levaram a internações, estado de coma, debilitando-o fisicamente, causando interrupções no cotidiano, culminando no falecimento. Nunca se cuidava, quando dizia já possuir um stend coronariano, respondia, “e eu que já tenho uns 10”. Comia de tudo sem nenhum controle. Não foram poucas as vezes, durante idas aos povoados, que eu, também diabético e hipertenso, reclamava dos excessos com sal, exagero na comida, no café sorvido com farinha d’agua.
Não adiantava, era incorrigível, não ouvia ninguém. A vida controversa de Aristóteles em Matinha, pode ser aferida na população que o conheceu mais de perto, conviveu com ele, o amou, detestou. Uns fazem ressalvas, outros, muitos, o veem como benfeitor. Na parte que me toca, reafirmo, gostava dele, nunca fui por ele admoestado. Outras pessoas compartilham desse pensamento comigo, cito por exemplo Daniel Aires, nosso querido, Daniel de Celina. Se fosse romantizar, diria que era uma espécie de Dom Quixote de La Mancha, personagem do romance do mesmo nome, de Miguel de Cervantes, sem o fiel escudeiro Sancho, mas ainda lutando contra moinhos de vento.
Morreu pobre, não acumulou bens materiais. Sempre o tratei como amigo e creio que esse sentimento era compartilhado, pois fui convidado, juntamente com minha esposa, para padrinhos do seu casamento.
Este texto, é uma singela homenagem a este amigo, Aristóteles de Belas Águas, que mudou deste plano, por Deus foi levado, deixando saudades.
João Carlos da Silva Costa Leite, nascido em Matinha, bancário aposentado, cursou Filosofia na UFMA. É membro do FDBM -, Fórum em Defesa da Baixada Maranhense e da AMCAL – Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras, ocupando a cadeira 17, patroneada por Maria José da Silva Costa Leite.



