Artigo de João Damasceno: São João Batista, muito além de 68 anos

A história da cidade de São João Batista, como de tantas outras, tem sido celebrada oficialmente a partir da data de sua emancipação política, ocorrida em 1958, fato este de fundamental importância para o seu desenvolvimento econômico, político e social. No entanto, é preciso que se recue muito mais no tempo para que se busque as origens da formação de seu povo, da sua cultura e de suas peculiaridades.

(Lago do Coqueiro em 2008 – foto: João Damasceno

É evidente que a ocupação de seu território tem um recuo temporal muito maior, pois pesquisas arqueológicas apontam que no Lago do Coqueiro, também conhecido como Lago dos Fugidos, situado entre os municípios de São João Batista e Olinda Nova, há vestígios de que ali vivera uma civilização lacustre que morava em palafitas, casas construídas sobre as águas desse lago, que segundo estudos em andamento, viveram nesse local entre os anos 250 e 1050 da era cristã, perfazendo um período de mais ou menos 800 anos de existência.

Tais evidências são comprovadas através de artefatos de cerâmica, cascas de coco, carvão, encontrados no fundo do lago e de centenas de pontas de esteios que sustentavam as suas casas. Há ocorrências dessas habitações lacustres em outras cidades da Baixada Maranhense, às quais foram denominadas pelo pesquisador vianense Raimundo Lopes (1894–1941) de Esteiarias. Em 2012, ano em que ocorreu uma grande estiagem e o Lago do Coqueiro secou, foi possível avistar uma grande quantidade de pontas de esteios em seu leito seco.

Também às margens desse lago, há uma localidade denominada Sarnambi já comprovada como um sítio arqueológico do tipo sambaqui, pelo arqueólogo Deusdédit Carneiro Leite, com o qual estive durante uma prospecção nesse local, em 2012. Na época encontramos diversos indícios de antiga presença humana constatada pela grande quantidade de material malacológico (conchas de moluscos comestíveis tais como sarnambi e sururu) e de fragmentos de louças de cerâmica (argila), dispersos pelos terrenos das casas do povoado.

É de suma importância que sejam feitas pesquisas arqueológicas mais aprofundadas sobre esses dois locais, o que poderá fornecer dados mais precisos sobre os primeiros povos que habitaram essa região: como viviam, quanto tempo povoaram esses lugares, qual foi o seu destino, quais eram seus aspectos culturais, religiosos e como era sua organização política e social.

Para também se buscar o passado mais distante de uma cidade, um dos mecanismos é a pesquisa nos arquivos de jornais que, no caso de São João Batista, desde o século XIX, já noticiavam sobre a ocupação de seu território, evidenciando, inclusive, uma efervescente movimentação de atividades marítimas, econômicas e culturais.

Esse retorno ao passado se faz necessário, à medida que novas gerações de joaninos vão surgindo e outras deixando de existir, pois com a dinâmica desse processo, muito se perde sem o devido registro e um povo sem memória está fadado ao limbo da história. Nesse sentido, comungo da frase poética do ensaísta francês Joseph Joubert (1754–1824): “A memória é o espelho onde observamos os ausentes.”

Neste breve ensaio apresento alguns vestígios dessa memória para além dos quase 70 anos de emancipação político-administrativa do município de São João Batista, tendo como base a pesquisa no noticiário jornalístico em fins do século XIX e início do século XX.

Em 1860, o jornal Publicador Maranhense, que era o jornal do comércio, administração, lavoura e indústria, publicou o decreto do governador da Província, estabelecendo os limites do município de São Vicente de Férrer, passando o lugar denominado Jabutituba, antes pertencente a Viana, a fazer parte de seus limites territoriais.

Ainda esse mesmo jornal, no dia 06 de março de 1875, noticiava uma reclamação para a criação de uma linha dos correios da freguesia de São Vicente de Férrer para o vilarejo de Jabutituba que naquele período pertencia a essa freguesia. Portanto, temos este povoado sendo um dos primeiros de São João Batista a ser ter notícias em periódicos do século XIX.

Em 20 de novembro de 1877 tem-se uma nota da Sala das Comissões da Assembleia Legislativa Provincial do Maranhão sobre a inclusão de um artigo a ser incluído no Código de Postura da Vila de São Vicente de Férrer, pelo qual se prometia aos criadores dessa localidade a construção de açudes e tapagens nos igarapés de Coroatá e Pirapendiba para aguada do gado em tempos de seca. Tais igarapés pertencem atualmente ao município de São João Batista, onde se encontram os povoados homônimos.

No início do século XX, no jornal A Pacotilha, de julho de 1902, há uma descrição sobre a vila de São Vicente de Férrer na qual aparecem diversos locais, lagos e portos que pertencem atualmente ao município de São João Batista, tais como os antigos portos do Ambude, Pyrapendyba e Coqueiro. A mesma matéria descreve ainda que a leste da vila se encontra o Lago dos Fugidos com uma cordilheira de outros pequenos lagos denominados Enseada Funda, Maravilha, Mocambo e, no centro, o Lago dos Peixes, circulado por enseadas.

Tratando sobre a hidrografia, clima e solo da região, a nota segue descrevendo que entre o porto de Caipáio e as pontas de capoeiras do Cazumba, há mais uma cordilheira de pequenos lagos, na qual o principal é o do Capão, que fornecem para a população uma grande e variada quantidade de pescados, sendo os principais a pirapema, curimatá, trayra, jeju, acará e aracú, demonstrando que naquela época já havia um considerável conhecimento a respeito do atual território de São João Batista.

A ideia de escrever este artigo (que pretendo ampliar para um livro) foi com a intenção de salientar a importância de pesquisas sobre a história da nossa cidade e do perigo iminente de perda dessa memória, por desconhecimento e pela falta de material literário disponível. A preservação da memória local é fundamental para a construção da identidade e do senso de pertencimento de uma comunidade. Sem o registro do passado, corremos o risco de ver nossa história diluída e as gerações futuras sem referências sobre suas próprias raízes.

João Damasceno Figueiredo Jr – Antropólogo e Joanino
São João Batista, 14 de junho de 2026.

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