Artigo de João Carlos Costa Leite: A armadilha de Tucídides

Considerado o pai da Historiografia Cientifica, o general e historiador ateniense Tucídides, doou a história humana um belo legado. Contemporâneos em termos de século, (V a. C.) – na Grécia Antiga, Tucídides e Heródoto, dois historiadores, foram de gerações não coincidentes, e moraram em cidades diferentes.

Escritor matinhense aborda o tema da Armadilha de Tucidides

Distintos também quanto ao que escreveram, Heródoto de Halicarnasso que viveu aproximadamente entre 484  e 425 a.C.,  considerado o Pai da História, a abordou de modo  sistemático,  pessoal, enfatizando aspectos religiosos, focando na narrativa ampla, aceitando o encontro de culturas,  mitos,  relatos orais; Tucídides, que habitou   em Atenas, por volta de  460  a aproximadamente 400 a .C.,  como já dito, o Pai da Historiografia Cientifica,  e do realismo político,  priorizou a análise racional,  observação direta, o critério severo e críticas as fontes.

Na obra Histórias, segmentada em nove tomos, o escritor de Halicarnasso – atual Bodrun na Turquia -, relata sobre as Guerras Médicas, entre as cidades-estado gregas e o Império Persa – atual Irã-, fazendo ainda enfoques antropológicos, geográficos, de costume das sociedades do Egito, Europa e Asia.

 Já Tucídides elaborou    vários tratados, o   principal foi A História da Guerra do Peloponeso, dividida em oito volumes, narrando o litigio entre Atenas e Esparta, as duas principais cidades-estado gregas. Além de contar sobre a guerra em si, como general, participou ativamente desta.

No livro 1, capitulo 23, o ateniense cunhou a passagem “a causa mais verdadeira, porém menos ostensiva, considero ser aquela que tornou a guerra inevitável:   o crescimento do poder de Atenas e o consequente temor instalado em Lacedemão

Essa expressão baseou o conceito A armadilha de Tucídides, proposto pelo escritor, cientista, professor e político estadunidense Graham Tillett Allisson, Jr, no livro “A Caminho da Guerra”, lançado no seu país em 2017.

Allisson usou a citação para formalizar sua teoria estabelecendo  as bases da ideia  que a armadilha acontece quando uma potência em ascensão ameaça outra  já estruturada, fomentando medo, tensão, consolidando  condições quase incontroláveis de conflagração.

 CORTE.

A história política da humanidade forneceu um princípio, que tem sido seguido desde a antiguidade, e serve para dominação dos povos, os Impérios.

 Essas estruturas como tudo no universo, estão sujeitas a um axioma: nascem, crescem, morrem.

A primeira experencia aconteceu na Mesopotâmia, em 2300 a.C.  o Império Acádio. Após este, ascendeu o Império Babilônio.

 Com o caminhar das civilizações, brotaram, floresceram, faleceram. Citarei mais alguns:  Egípcio, Mongol, Cartaginês, Persa, Romano, etc.

 A partir do século XVI e princípio do XVII da era cristã, emerge o império Britânico, o maior império em terras descontinuas já existente, chamado o “o domínio onde o sol nunca se põe”.

Era composto por colônias, protetorados, mandatos,  territórios governados ou administrados pelo Reino Unido, constituído por Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.

O silogismo posto, se revela cabalmente em 1997, quando Hong Kong é devolvido a China.

 No entanto o ocaso Britânico já se fazia presente em outras esferas, durante o século XIX / XX, por exemplo, a independência de várias de suas colônias, principalmente a Índia.

Outro fator importante, o crescimento dos Estados Unidos da América e do Império Alemão nesse período.

No cenário pós primeira guerra mundial, o alçamento da URSS – União das Republicas Socialistas Soviéticas -, prognosticava um embate que se tornou real após a segunda.

Durante   sessenta anos, os EUA e a URSS, vivenciaram o ciclo da Guerra Fria, conflitos por procuração, onde o choque” tete a tete” entre os dois foi preservado, e que teve seu auge na década de 60 e 70, com a corrida espacial e chegada do homem à lua.

A queda do muro de Berlim, e o esfacelamento da URSS, provocando o fim do socialismo real, rompeu a dicotomia existente, denominada bipolarização, para uma supremacia dos Estados Unidos, já consolidados, como o mais novo império, sucedâneo do Britânico.

Iniciamos o século XXI com nova nomenclatura, mundo unipolar. Mando pleno e absoluto dos EUA.

Absorvida na sua arrogância, poder, a única nação a arremessar bomba atômica e fomentar o maior número de guerras, esqueceu-se da China, isto foi fatal aos seus propósitos.

Dando contornos a fase atual do processo político e explicitando, esclarecendo, o porquê do título deste texto.

Por ter uma gigantesca população, a República Popular da China, sempre passou incólume ante as desavenças históricas das nações. Desse modo, não se envolveu significativamente nelas.

Advindo de uma revolução popular, que mudou o regime do país, nas décadas de 30/ 40 do século anterior, demorou erradicar problemas existentes. Só em 1976, virou silenciosamente, sem alardes, suas mazelas internas e externas.

 Hoje, a conjuntura  mostra modificações, nomeada de mundo multilateral, não mais uni.

Disputando com o ocidente parcelas importantes das pautas econômicas, sociais, bélicas, robóticas, eletrônicas, terras raras e aeroespaciais, a China detém segundo o FMI – Fundo Monetário Internacional-, um PIB – Produto Interno Bruto -, maior que seu adversário.

Praticando políticas inclusivas em países da África, Asia, América Latina; formando blocos junto ao Sul Global –, por exemplo o BRICS – sigla de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul -, agindo de forma não belicista, sem retaliar nações, com um comércio pujante, crescimento econômico consistente, o modo chines já concentra a simpatia de grande parte dos seres humanos.

 Feito inédito, uma vez que as informações sobre o povo e o governo deles, são em maioria esmagadora, repassadas negativamente pela imprensa que não escreve em mandarim.

 Existe um consenso entre os analistas, a disputa pela hegemonia do mundo se concentra nos EUA e China.

A partir dessa constatação, um dilema aparece: a Armadilha de Tucídides será acionada?

Dias atras, numa visita a Pequim, o presidente da potência do norte, Donald Trump, foi surpreendido como uma fala de Xi Ji Ping, líder chinês, sobre a Armadilha de Tucídides.

Estaria Xi mandando um recado subliminar? E o ocidental, apto, conhecedor, das idiossincrasias, estratégias, contidas, enredadas, no atual momento?

 A realidade histórica se impõe acima de gritos, leitura enviesada, opressões explicitas, taxações de produtos, manifestações beligerantes. O império estadunidense não é mais o mesmo, e a china está em desenvolvimento.

Nossa geração verá a efetivação da Armadilha de Tucídides?

Fica a pergunta no ar.

Uma resposta para “Artigo de João Carlos Costa Leite: A armadilha de Tucídides”

  1. Belíssima descrição política-histórica. O autor conseguiu sintetizar de forma brilhante, o processo histórico do qual se propôs a escrever, a partir de um conceito..

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