O jovem indígena Paulo Jeremias Aires, conhecido como Jerê e que possui o nome indígena ɴʜ xʏᴍ ᴀᴋʀᴏᴀ́ ɢᴀᴍᴇʟʟᴀ, tornou-se o primeiro estudante indígena do povo Akroá Gamella a se formar no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A colação de grau ocorreu no dia 23 de janeiro deste ano, em São Paulo.

Jerê é integrante da etnia Akroá Gamella e pertence à aldeia Taquaritiua, localizada entre os municípios de Viana e Matinha, na Baixada Maranhense. Sua trajetória acadêmica é marcada pelo engajamento acadêmico, social e político, além da valorização dos saberes tradicionais de seu povo.
Durante a graduação, o estudante desenvolveu uma pesquisa de Iniciação Científica com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), intitulada “Você está em território Akroá Gamella”, que abordou a história oral dos anciãos de sua comunidade. O trabalho contribuiu para a recuperação de práticas culturais que sofreram apagamento histórico, como o ritual do Bilibeu.

No Trabalho Final de Graduação (TFG), Jerê elaborou um projeto arquitetônico voltado para uma cooperativa de produção de juçara e guarimã — produtos cultivados no território Akroá Gamella e fundamentais para o sustento da aldeia no Maranhão. Além da atuação acadêmica, o formando teve participação ativa em debates sobre a presença indígena na universidade, tanto na Unicamp quanto em espaços internacionais. Ele participou de discussões na Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, e atuou como redator da revista Sumaúma, cobrindo pautas relacionadas à COP30 diretamente de Belém (PA).
Jerê também integrou o Móbile EMAU (Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo), o movimento estudantil, o movimento LGBTQIA+ e o Centro Acadêmico da Arquitetura e Urbanismo (CACAU). Foi bolsista do Serviço de Apoio ao Estudante (SAE), onde colaborou na produção e atualização do Guia Cultural da Unicamp, contribuindo para o mapeamento das ações culturais da universidade e para o fortalecimento de políticas públicas no setor.
Atualmente, é cofundador da Abya Yala Criativa, evento voltado à moda indígena brasileira, e membro da coordenação do Coletivo dos Acadêmicos Indígenas da Unicamp, atuando nas áreas de comunicação institucional, organização de eventos e articulação política.

Discurso e reconhecimento
Jerê foi escolhido como orador de sua turma na cerimônia de formatura. Em seu discurso, destacou a importância da inclusão e refletiu sobre a construção coletiva na arquitetura. “Talvez a arquitetura seja o curso que mais se aproxima de uma vida em aldeia: feita em conjunto, atravessada por conflitos e sustentada pelo cuidado”, afirmou.
Em publicação nas redes sociais, o formando compartilhou um trecho de reflexão pessoal sobre sua trajetória, destacando a resistência, a continuidade e a importância do coletivo no processo de formação. A Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FECFAU) parabenizou o novo arquiteto, destacando que sua história inspira a universidade a aprofundar o compromisso com a diversidade e a valorização de novas identidades no campo da arquitetura e do urbanismo.
Paulo Jeremias Aires cursou o ensino médio entre 2015 e 2017 no Centro de Ensino Aniceto Mariano Costa, escola da rede estadual localizada no município de Matinha, no Maranhão.




parabéns por sua dedicação 👏👏👏👏👏👏