Platão vaticina, na parte VII da obra A República, que após longo aprendizado só depois dos 50 anos, o ser humano adquire a plena sabedoria. Centrado no mito da caverna, o capitulo citado, fundamenta-se basicamente na famosa alegoria, cenário por séculos debatido. A Paidéia, concepção da formação integral do ser humano, conduz a uma temática fascinante: só ser possível alcançar o verdadeiro conhecimento, após meio século.

O rei-filosofo, arquétipo exibido, governa a pólis com sobriedade, equidade, comedimento, Justiça. Conclui-se então, numa reflexão necessária, ser tal fundamento, coberto, eivado de razão. À medida que o físico evidencia exaustão, cansaço, atrofiamento; o mental, espiritual, revela outra performance. Atitudes, reações, raciocínios, pensamentos, são mais bem pesados, pensados, conduzidos, refletidos, organizados, delineados. A valorização dos objetos, objetivos, transcendem de finalidade. É a sabedoria impondo seu ritmo, sua métrica.
Como todo paradigma filosófico, este, não é um conceito concreto, sim, abstrato. Destarte, frêmitos de singularidade circundam a ideia do personagem Sócrates, trazendo liças, embates, discussões, teses, antíteses, sínteses. Neste meio século e quase uma dezena e meia de anos, sensações de raiva, arrependimento, riso, vergonha, asco, se apresentam ao relembrar situações, acontecimentos, episódios pretéritos. Descendendo por parte de mãe de uma família com ativa participação na emancipação de Matinha, herdei, embora sendo da vertente pobre, propriedades típicas, que coadunando com a cor da pele e dos olhos, davam o tom de altivez, poderio, soberba, arrogância, onde a discriminação em seus matizes, regia.
Coexisti, portanto, com misoginia, homofobia, racismo, etarismo, classicismo, capacitismo, sexismo; intolerância contra pobres, pretos, crianças, prostitutas, periféricos, líderes de religiões afro, participantes dentre tantos. Precedendo o nascimento semântico destes termos. Tempos de uma sociedade hermética, arcaica, carcomida; a ignorância ao politicamente correto atingia frontalmente a todos, não abrindo espaço para novidades. Ser protestante, da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil – IPIB -, uma instituição religiosa histórica, e naquela época ainda não afetada ao neopentecostalismo, as vezes amenizava, pois, nossos pastores, presbíteros, ensinavam quase sempre o princípio da igualdade. No entanto, não resolvia a questão.
Fator inibidor era minha condição física. Cheguei ao mundo com um defeito no braço direito, ocorrido durante o parto. Ficando este mais fino e torto, automaticamente, tornando-me vítima dos bullyings – palavra inglesa, até então desconhecida, cujo significado é tirania, opressão -, sendo ao mesmo tempo, membro dos estigmatizados e dos opressores. Um imenso paradoxo.

Somava-se a complicação obstétrica, um outro, de viés estético, meu nariz é notavelmente grande, quando comparado aos padrões normais, gerando apelidos e menções jocosas. Nessa dicotomia, verbalizava segregação constantemente e presentemente tenho clareza dessa covardia. O que, como já dito, causa profundo vexame relembrar. Essas atitudes, outrora prazerosas, tornam-se angustiosamente dolorosas. Sou tomado pela alteridade, ponho-me no lugar do outro. É como se aquela dor que não sentia, fosse agora transportada pra dentro da minha alma.
Há uma lógica, um caráter semiótico, embasando a premissa oferecida. Estudiosos das mais diferentes lavras, propõem analises cronológicas mostrando a evolução durante a infância, adolescência, fase adulta; desembocando nos mágicos cinquenta anos. Não enveredarei no caminho de teor universal, me aterei a especifidade. Antes, confesso conhecer pessoas que fizeram o percurso inverso, despossuídos de preconceitos quando jovens, hoje, devido posições políticas, sociais, religiosas extremadas, vivem em campos infelizmente, opostos do que apregoavam.
Trata-se, obviamente, de um processo, e, como tudo na humanidade, diferenciado ontologicamente. A metamorfose, começou comigo de forma temporã, e hoje, serôdia, serve como troféu ante as vicissitudes alcançadas. Adotar uma criança preta, me fez sentir na pele, mesmo não tendo lugar de fala, quão torturantes eram quando proferidas aos colegas negros; ter amigos homossexuais, idosos, pobres, com alguma necessidade física/ mental, atingiam, devassavam, meu mundo tão divertido no passado, como fogo devorador. Estar envolvido em trabalhos na igreja, lidando com mulheres/ homens, da minha classe social, desfez o mito, pero no mucho, do branco, macho, poderoso, oriundo do clã que fundou a cidade, circundando meu querer, nas conversas e posturas do círculo familiar mais abrangente,
Acesso a cantores(as) da MPB, escritores(as) clássicos renomados, na biblioteca do município, além de gibis, revistinhas trocadas com contemporâneos(as), abriram a mente, e evoluindo pra outras modalidades, começaram a destruir incompreensões que insistiam em se manter vivas. O momento decisivo, foi quando da vinda pra São Luís, aos 17 anos, estudar no Liceu Maranhense. Envolvi-me nos nichos culturais tão próprios dessas instituições de ensino, onde o espirito libertário espalhava-se, e o debate, inclusive político, talvez por estarmos sob ditadura militar, era premente.
Na biblioteca do Liceu, em pleno regime de exceção, acessei a revista Veja, guardada exemplar por exemplar, durante os momentos mais agudos da ditadura, principalmente os denominados “anos de chumbo”, de 1968 a1974, notadamente as páginas amarelas, contendo entrevistas com próceres da época: economistas, historiadores, políticos, etc. Participar do Laborarte, (Laboratório de Expressões Artísticas), um grupo artístico independente, fundado em 1972, que atua no resgate e difusão das tradições culturais populares do Estado do Maranhão, deu continuidade a abertura do entendimento, que avançou mais ao ingressar no Sindicato dos Bancários e filiar-me ao Partido dos Trabalhadores.
Trabalhar numa corporação bancária, atuar no sindicato da categoria, nos movimentos populares, sociais, igreja, moldou minha existência, e juntamente com a chegada e criação dos filhos, plasmaram este ser para o reconhecimento, respeito, a toda a forma, modo, culto, cultivo, experiencia, ponto de vista, constância, profissão, manejo, extrato social, existente. Entrar no curso de Filosofia, numa instituição federal, aos 51 anos, foi a cereja do bolo, a coroação de uma epopeia, que celebra, ratifica, confirma precipuamente a proposta deste texto.
No curso, tudo tratado neste escrito é encontrado, debatido, visto, estudado. O ambiente permite, inclusive, a ignorância histórica. Um microcosmo, onde as sombras do mito da caverna e o conceito de que o verdadeiro conhecimento só é atingido após meio século de vida confluem, convergem. Meu mundo real, minha história, dão a entender que cumpri o percurso. Não tenho a arrogância – boa, velha, ancestral, imanente -, em dizer-me isento aos preconceitos, uma vez que ainda não suporto música sertaneja, gospel e sertanejo universitário, dentre outras manifestações.
Comtemplo- me, todavia, no essencial, a procura daquilo que o espirito da cidadania impõe ao contexto de uma sociedade, uma utopia ideológica, a Politeia (cidade ideal) sadia, progressista, diferenciada, justa.
João Carlos da Silva Costa Leite, nascido em Matinha, bancário aposentado, cursou Filosofia na UFMA. É membro do FDBM -, Fórum em Defesa da Baixada Maranhense e da AMCAL – Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras, ocupando a cadeira 17, patroneada por Maria José da Silva Costa Leite.


