Francisco Silva Gomes, de 63 anos, morador de São José de Ribamar, na região metropolitana de São Luís, realizou um sonho que lutou por anos: registrar legalmente como filho Samuel Gomes, o menino que criou desde os dois meses de idade. Cego desde 2010 e vivendo sozinho, o aposentado enfrentou uma longa batalha judicial até conseguir ser reconhecido como pai adotivo da criança.

A história começou em 2013, quando Francisco decidiu acolher Samuel, filho de um amigo caminhoneiro com uma jovem da Baixada Maranhense, que não tinha condições de criar o bebê. Ao saber da situação, Francisco pediu permissão para criá-lo. Desde então, construiu com o menino um vínculo afetivo sólido, enfrentando desafios e preconceitos por ser um homem com deficiência criando uma criança sozinho.
“Diziam que a mãe era doida por dar o filho dela pra um cego criar. Mas eu dizia que ia criar, e criei. Hoje ele é tudo pra mim”, conta Francisco. O menino, hoje com 11 anos, é sua principal companhia e cuida dele com atenção e carinho. Francisco, emocionado, relata que até hoje guarda a camisa que Samuel usava no dia em que foi entregue a ele. “Passei dois anos sem lavar. Cheirava, dormia com ela. Está guardadinha.”
Com o passar dos anos, Francisco sentiu a necessidade de registrar legalmente o filho, mas encontrou resistência da Justiça. “Existe uma burocracia. Dizem que homem não pode adotar menino sozinho, mulher também não. Eu acho isso uma besteira. O importante é o amor e o cuidado”, declarou.

Sem condições financeiras para contratar um advogado, buscou apoio da Defensoria Pública do Estado do Maranhão (DPE-MA). Foi no Mutirão Nacional de Reconhecimento de Paternidade, em 2021, que o processo avançou. Com autorização dos pais biológicos, uma audiência realizada em 2022 oficializou a adoção. A nova certidão de nascimento foi emitida em 2023, incluindo o nome de Francisco como pai adotivo.
Além do reconhecimento afetivo, a formalização da adoção garantiu a Samuel direitos legais, como herança. “Comprei uma casinha que é dele. Tudo que tenho está no nome dele. Quando Deus me levar, meu filho vai estar amparado.” Francisco também faz questão de manter os laços do menino com seus pais biológicos. Samuel já visitou a mãe, que vive em Maracaçumé, no interior do Maranhão, e mantém contato com o pai biológico na Grande São Luís.
A defensora pública Isabela Bacelar destaca que histórias como a de Francisco demonstram o papel essencial da adoção como instrumento de inclusão social. “A adoção contribui para o direito à convivência familiar e ainda enfrenta preconceitos, especialmente quanto ao perfil dos adotantes.” Francisco hoje é um defensor do trabalho da Defensoria Pública e costuma encaminhar outras pessoas em situação de vulnerabilidade para o órgão. “Já ajudei sobrinho, vizinho, amigos. Recomendo sempre. A Defensoria mudou minha vida.”
O defensor público Alexandre Marinho lembra que a adoção é um ato de amor que rompe barreiras e preconceitos. “Laços familiares são construídos por afeto, não apenas por sangue.” A história de Francisco e Samuel é exemplo de superação, amor incondicional e da importância das políticas públicas de acesso à Justiça para garantir o direito de viver em família. O resto dessa linda história foi contada pelo G1.



