O fascínio pelas histórias fantásticas acompanha a humanidade desde priscas eras. O deslumbramento por fábulas, seres mitológicos, entidades fantasmagóricas, lendas rurais/ urbanas, ocorrem em todas as civilizações. Gerações e gerações, aprenderam/apreenderam lições oriundas de relatos trazidos de além-mar pelos colonizadores/colonizados, senhores/escravizados, que aqui chegaram após a invasão deste solo chamado Brasil.

Na infância pobre e feliz em Matinha, sem energia elétrica, sob a bruxuleante luz das lamparinas, em casa ou nas noites de lua cheia, sentados na calçada do casarão de Juca Amaral, calafrios atravessavam da ponta do pé ao fio de cabelo, quando ouvíamos histórias de fantasmas, lobisomens ou labisonho, mula sem cabeça, croacanga, luz nos cemitérios, fite, berrador, mulher de branco, encantados, etc. Exposições carregadas de mistério, a começar pela forma, um quase sussurro, aos nossos ouvidos atentos, amedrontados.
Além da calçada em noites de lua, das salas espaçosas, mal iluminadas, outros dois ambientes, eram fontes de circulação de contos de visagens, assombrações: as roças, em todas as suas etapas, da derrubada do mato, até o estágio final, no corte do arroz ou mandioca arrancada; e os funerais ou sentinelas, ocasião que o povo ia dar seu derradeiro adeus ao, “amarrado em duas cordas”, “passou desta pra melhor”,” foi comer capim pela raiz” ,”desceu pra terra de pés juntos”, “pra debaixo de sete palmos”, pro “mangá de Arlindo”, dentre outras tantas maneiras que o matinhense nomeia o fim deste ciclo.
Inesquecíveis momentos, sob a proteção do telhado de pindoba do rancho no meio da roça, aquecidos pelo fogo, onde brasas estalavam. Descansando, ou a espera do almoço simples, frugal, mas, tão delicioso quanto o melhor banquete, ouvíamos aterradoras descrições. O comerciante de família tradicional, tornado rico, ao engabelar um trabalhador pobre que encontrara enorme pepita de ouro; o homem que lutara com um bode no caminho do Mangal; o berrador do caminho grande; o couro velho arrastado no meio da noite silenciosa
Odisseias de soberanos, princesas, reinos riquíssimos, sempre com um amarelinho esperto de nome Camões (Camoi), – mostrando a gênese lusa das nossas lendas-, pobre que engana o rei, casa com a princesa, torna-se dono de tudo, milionário. Peripécias com monstros marítimos engolindo navios, tripulação, sendo salvos por valente marinheiro.

Contados com seriedade em algumas ocasiões, em outras, entrecortados por gargalhadas, pilhérias, ironias, chavões, transparecendo, a quem não conhece a realidade baixadeira, contradições, mas, que encarávamos naturalmente. Fulano tirou dinheiro enterrado; o sulino é visagento; o velho que mora sozinho vira porco nas noites de sexta feira; sicrano foi embora pra Pindaré depois de arrancar uma bilha cheia de ouro, o buraco ficou lá, pra não dizer que é mentira.
Na estrada do Canem, visage sobe na garupa do cavalo; o caminho fundo depois da Água Comprida, é amaldiçoado; tem uma cobra grande no Bamburral do Galego, que engole o pescador no jirau; no rio do Pirai tem um berrador; no Ribeirão tem uma gia encantada; naquela ponta de mato, se entrar, caboco do mato, faz se perder; beltrano cria um casal de mãe d’água.
Estas e outras histórias povoavam o imaginário popular e passavam de pai pra filho. Clãs inteiros possuíam “rumas” de irmãos, primos, tios, com tais peculiaridades, resultando dignas referências:- na família de sicrano, todos são bons contadores de histórias. Citaria vários, no entanto, me aterei a dois, que retratarão, representarão, esses sensacionais artistas, orgulho da nossa terra. Símbolos de um estilo de difícil elaboração, continuidade, desfecho: Silvino Cutrim Rodrigues e Praxedes Daniel Moraes Costa.
Especialista em contar causos nas sentinelas, passava a noite inteira falando sobre diferentes temas. Sua gargalhada, gostosa, estridente, ressoava no ambiente, quebrando o silencio daquele momento de pesar, entre choros, cafés, chás e bolinhos servidos. Num funeral, dois personagens dividiam a atenção e aglutinavam pessoas em torno de si, o defunto, por razões óbvias; e Vico, como era chamado nosso artista, por sua irreverencia, capacidade de desfiar causos e mais causos, incansavelmente, até o amanhecer.
Era constantemente solicitado nessas horas, atendia sempre que podia, parecia gostar, se divertir. Exibia performances excepcionais. Muitas foram as vezes em que os próprios parentes do morto, de forma bem discreta, sorriam ante uma história burlesca, pitoresca, de duplo sentido, contada por ele. Diria que Vico, com sua presença solerte, transfigurava a aura aflitiva, angustiante, da perda de alguém, aquele ambiente soturno, triste, que a morte traz. Fazendo com que o tempo corresse mais aprazível .

Por um desses mistérios que não sabemos explicar racionalmente, ou senso de humor do destino, não alcançou a chance de ter o seu corpo velado, como sempre fez com conterrâneos. No entanto, está imortalizado. É patrono da cadeira 29 da AMCAL – Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras –, ocupada pela confreira Maria do Socorro Neves Silva. Praxedes Daniel Moraes Costa, Prexede, como ficou conhecido, um daqueles seres humanos impossíveis de não ser notado por onde passasse. Carregava inteligência inata, sorriso cativante no rosto, simpatia contagiante.
Sua propensão aos versos e causos vieram do pai, Manoel Vera Cruz Costa, e estendeu-se em menor ou maior grau aos irmãos, segundo todos, ele era o melhor, o craque. Compositor de toadas, cantador de bumba meu boi, bailante de São Gonçalo, cordelista, de memória prodigiosa, emocionou-nos numa apresentação feita pela AMCAL no shopping São Luís. Seu carisma, talento, voz, motivaram intensas palmas do público presente.
Tendo nos deixado numa época em que sua obra colhia frutos, já sendo divulgada e reconhecida, Praxedes merece homenagens no nosso meio. É oportuno não deixar morrer os encantos das histórias, contos, causos e memórias, da querida Terra da Manga. A vida será mais doce com esses resgates; nossos filhos e netos, mais agradecidos, informados, felizes. Nossos valores, artes, artistas, eternizados.
João Carlos da Silva Costa Leite, nascido em Matinha, bancário aposentado, cursou Filosofia na UFMA. É membro do FDBM -, Fórum em Defesa da Baixada Maranhense e da AMCAL – Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras, ocupando a cadeira 17, patroneada por Maria José da Silva Costa Leite.


Parabéns,primo.
parabéns João eu concordo água comprida leva fama até hoje
incrível.. trás lembranças incríveis de uma época memorável para todos nós…memória incrível..desse nosso escritor João Carlos nosso amigo …parabéns pelas lembranças ..
boa tarde parabéns João Carlos vc é o cara fez eu ir em matinha e voltar para Brasília em 1 minutos tudo que vc escreveu está tudo na minha mente por exemplo água comprida coro velho que se arrastava na a vencida ,lamparina casarão de Juca Amaral Silvino Rodrigues conhecido como viço não podia faltar em um velório para contar histórias