Entre os dias 26 de abril e 1º de maio, os indígenas Akroá Gamella celebraram o ritual do Bilibeu, encantado cultuado no território Taquaritiua, na cidade de Viana, Baixada Maranhense. Mais que uma celebração cultural, o Bilibeu é um ato de resistência, memória e afirmação do direito de existir em sua terra.

Desde o ataque violento de 2017, essa festa deixou de ser apenas tradição: tornou-se símbolo de retomada, espiritualidade e luta coletiva por vida digna e território livre. Cada corrida dos cachorros, cada canto entoado na casa de reza, cada gesto de caça e partilha expressa a coragem de um povo que não se deixa silenciar.
O ritual é uma homenagem a Bilibeu, que segundo a história, foi encontrado durante a queima de uma lavoura no território dos Akroá Gamella. A Bilibeu, são atribuídos diversos milagres de cura e também a fertilidade das mulheres. “O ritual de Bilibeu acontece desde tempos imemoriais. No ritual, Bilibeu morre e renasce. Na vida, os Akroá Gamella resistem [renascem todos os dias] ao racismo que deforma seus corpos”, esclarece o povo Akroá Gamella.
As festividades de Bilibeu, que aconteciam durante o Carnaval, foram transferidas para o mês de abril como forma de fazer memória da resistência do povo Akroá Gamella ao massacre sofrido em 2017, incitado por ruralistas e outros atores da região, que deixou mais de 20 feridos, sendo que dois tiveram as mãos decepadas.
“O dia 30 marca a data em que o povo Akroá Gamella sofreu um ataque orquestrado por uma diversidade de sujeitos como políticos, igreja protestante e fazendeiros numa chamada mobilização pela paz, que resultou, na verdade, em um massacre. Desde então, o encerramento do Bilibeu tornou-se um dia de luta e resistência do povo para a continuidade da vida”, explica Meire Diniz, missionária do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Maranhão.

A saída dos cachorros
A saída dos cachorros foi anunciada com fogos de artifício na madrugada dessa quarta (30). Nessa etapa, jovens, crianças e adultos se reúnem e despertam quem ainda está dormindo para iniciar o momento mais aguardado do ritual. Reunidos na casa de reza, todos entoam cantos e imitam os uivados, simbolizando a vocalização dos cachorros. Após correr no pátio, começa a se formar o grupo que irá buscar a caça em todas as aldeias da TI Taquaritiua.
A corrida dos cachorros é assim chamada pois os corredores pintam os seus corpos e marcham por cerca de 12 horas em busca de caças, como galinhas, patos, porcos e outros tipos oferecidos ao encantado Bilibeu. Com os cachorros, seguem as onças e gatos maracajá, representados pelos indígenas, caçadores e transportadores para abater os primeiros animais que serão servidos ao fim do Ritual, na quinta-feira (1).
Com informações do Cimi, MIQCB e Coletivo de comunicação Akroá Gamella


