Artigo de João Carlos Costa Leite: Curiosidade, parte importante da minha personalidade

A curiosidade sempre conviveu  comigo. Creio ter sido o primeiro sentimento a se aperceber   e  certamente o mais difícil , ou impossível de deixar-me. Já sexagenário, a índole da bisbilhotice permanece lépida, fagueira em meu ser. São hilárias as histórias que cataloguei ao longo dos  anos.  Foi responsável pela formatação  das minhas incompreensões, utopias, relações imagéticas,  contradições, duvidas, certezas, no aspecto cultural, ideológico, filosófico, religioso.

Escritor matinhense fala sobre a saudade

É hereditário, mamãe  gostava  de perguntar. Pastores e missionários  que chegavam a Matinha, na primeira oportunidade, eram testados em seus conhecimentos bíblicos. Embora respeitasse a todos os ministros religiosos,  regra basilar para os  presbiterianos, se permitia  retrucar, quando a resposta não a agradava, e se o interlocutor ficasse ressentido, usava  o argumento maior, citando dois próceres que conheceu :  – “ora se nem o reverendo Adiel ou Almir  se zangaram comigo, por que esse  pastor vai” ?

Referia- se  a Adiel Tito de Figueiredo e Almir André dos Santos, legendários servos de Deus, que pastorearam a IPIB- Igreja Presbiteriana Independente do Brasil – do município, nos meados do  século passado. Devido  defeito  físico de nascença, procurei entreter-me   na apreciação  de revistas, livros, fotonovelas,  visando  fugir do trabalho  na roça, ao qual os  irmãos eram obrigados  para  sobreviver. Obviamente, que essas ações  não eram feitas  só por mim,  havia por trás  a formidável ajuda de três  ardilosas, astutas mulheres: vovó Lola, Tchem e mamãe.

Passo a passo, davam suporte aos meus desejos. O resultado era o esperado, ora se uma mulher sozinha, consegue impor suas ideias, imaginem três! Fui poupado de  pescar,  mexer farinha, fazer quaisquer outras atividades dos demais. Numa análise estatística avulsa, creio que nem cheguei a 10% do que meus irmãos trabalharam.  Embora fossemos pobres, nossa  família  tinha uma certa aptidão a leitura, consequentemente, a indagações.  Mamãe   citava  alguns autores e autoras  americanas, que traziam histórias da colonização dos EUA , dentre  elas, a  clássica obra   A Cabana de Pai Tomás, da escritora e militante abolicionista  estadunidense,   Harriet Beecher Stowe.

Através  das  mulheres  que rondavam minha vida, fui ensinado  precocemente  no caminho da  leitura. Vovó Lola era cega,  grande parte  dos meus parentes, quando chega na terceira idade, adquire glaucoma,  não lia, mas, igual as duas filhas,   mimava e estimulava o neto a fazê-lo,  especialmente a Bíblia. Dessa forma,  cumprindo a seleção natural  de  Charles Darwin, comecei a usufruir do  cenário proporcionado.  Os  irmãos do segundo casamento, aproveitaram,   e na primeira oportunidade, procederam  como a  maioria dos baixadeiros, mudaram-se.  Um pra São Luís, o  outro pra Fortaleza.

Papai, ainda sagico, mantinha  o encargo   de fazer roças, farinhas; trabalhar na oficina, fabricando lamparinas, consertando fornos, alambiques,  já quase inexistentes. Além  disso,  pescava  de anzol, choque,  para o nosso sustento. Lauro,  casado, com filhos,  laborava como padeiro, caçava, e sempre ajudava quando mexíamos farinha. Eu ia  esporadicamente na lavoura  – sempre com as costas quentes -, pescar com mais efetividade, notadamente de anzol   a  noite,  bagrinhos e jandiás;  as vezes,  consertar um forno ou outro,  com papai. Então, todo  resto do tempo, fazia aquilo que adorava,   perguntar, questionar,  debater, aprender

Lia tudo que me chegava as  mãos:  gibis  em quadrinho, mandados pelos primos; revistas O Cruzeiro, retalhos – O Estado do Maranhão, Imparcial, Jornal Pequeno-,  achados na rua.  Matemática nunca foi o meu forte,  predileção por    história, geografia,  um pouco de gramática. Muitos  os episódios  pontuaram minha infância, quanto a  essas   particularidades. Certa vez, quase boto Tchem maluca em Viana, para conseguir algumas revistinhas.

De outra, deixei uma professora em  saia justa.  Ao ouvi-la, numa  aula de história do Brasil, dissertar sobre o dia Sete de Setembro,   inquiri: professora como é que a história  mostra muitas lutas, rebeliões, os portugueses chegaram até a matar Tiradentes,  e Dom Pedro I consegue com um simples grito de “independência ou Morte” libertar o Brasil? Passei a infância com a fama de querelante, polemico,  leitor contumaz.  Angariei amigos/ amigas, entre mestres   e colegas,  também,  alguns desafetos. O  que creio, só não foi mais forte, devido minhas duas mães : Tchem, por ser enfermeira, parteira,  respeitada na profissão; mamãe, pelo ativismo em favor dos filhos.

Capaz de se envolver –  isso aconteceu bastante -, em brigas memoráveis defendendo  seus rebentos,  não era de bom tom,  verdade  por todos conhecida,  ter Maria de Lola  como adversária. A realidade, o ambiente, a imperiosa necessidade que  tinha pra  evoluir,  me obrigavam traçar uma estratégia, um método,  visando  consegui tal  intento. Fui compelido  a ler tudo que aparecia na  frente. Guardei uma lembrança ilustrativa : na infância, mamãe me mandava comprar no comércio de seu Melques, que ficava um pouco distante de onde   morávamos. Quase  todas as vezes  demorava mais que o necessário, devido a perda de tempo lendo folhas de publicações encontradas na rua.

Assim,  pavimentei  a formação  literária,  intelectual. Outras atividades  incorporaram-se  com o tempo.    Revistinhas infantis da Disney, (tio Patinhas, Pato Donald, Mickey e Pateta etc.); Bolinha, Luluzinha. Recruta Zero, Tex Willer, Superboy etc. Livros,  digamos mais adultos, como  Tarzan. Apesar da pouca idade li Drácula, de Bran Stoker, que Tchem guardava numa das gavetas da sua cômoda. Havia espaço ainda para as de cunho político, esportivo,  sentimental,  Realidade,  Placar, Sétimo Céu, O Cruzeiro. Ou seja, o ecletismo imperava.

A evolução para bolsilivros de faroeste, espionagem, guerra,  veio  automática. Na adolescência já vagueava por estes estilos, intercalando com as revistas de fotonovelas, capricho;  o indefectível seleções do Reader’s Digest, segundo o google, até hoje o periódico   mais lido do mundo,  que trazia embutida  mensagem subliminar – as vezes nem tanto -,  enaltecendo  virtudes capitalistas  dos  americanos, contrapondo-se ao comunismo  soviético.

Ficaram na memória, as intensas procuras   de bolsilivros,  revistinhas, com Cecé e Nonato de dona  Nhadica; Edilson de Tancredo, que morava em Viana, mas vinha constantemente a Matinha, sempre trazendo novas edições, que eram avidamente devoradas. Um desses companheiros de aventura,   nunca mais conseguir encontrar:  João. Residia   onde hoje é o bairro de Santa Maria, com uma senhora,  idosa e cega, de nome Margarida. Não guardei  o grau de parentesco entre eles, acredito ser ela sua  avó. Era conhecido por João de Margarida.  Formávamos  um quarteto insaciável, ele, eu, Cecé e Nonato. As edições  transitavam entre nós celeremente.

Frequentava  regularmente  a biblioteca  municipal,  o mundo do saber abria-se  Ali  aflui  as  obras de Machado de Assis, Jorge Amado, Dalton Trevisan,  enciclopédias, dicionários, dentre outras.

Surgiram   os questionamentos ideológicos

Criado numa família pobre, mas orgulhosa em ter parentes que ajudaram na criação da cidade,  acreditava  na família pioneira e nos valores capitalistas, obviamente, odiando o comunismo. Por  curiosidade,  decidi   ouvir  músicas da MPB, em contraponto  ao que era comumente tocado nas rádios, Jovem Guarda; meu senso crítico passou a ser aguçado. Incorporei   os sentimentos esboçados nos personagens menos adocicados de autores como os   citados acima, juntando-os a poetas, poetisas, cantores, cantoras, com mais preparo em letras e músicas.

Desse modo, Lima Barreto, José Lins do Rego, Artur e  Aloisio Azevedo, Raul Pompeia, Josué Montello, Castro Alves, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, José Saramago,  João Cabral de Melo Neto, Cecilia Meireles, Rachel de Queiroz; secundados por cantores e compositores do naipe Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina, Raul Seixas, Guilherme Arantes,  dentre tantos, passaram a conviver comigo,  e literalmente, mudaram minha vida.

Some-se a isso,  algumas leituras rápidas e clandestinas em revistas tidas por adultas, como Playboy e congêneres. Esses conceitos, fundamentos, chegaram sorrateiros,  instalaram-se.  Trouxeram, em  função do instante, outras configurações:  as emoções relativas ao comportamento,  importantes no sentido psicológico, sexual, religioso, cultural.

 Sentimentos mais dispares possíveis, acumularam-se naquele ser franzino, notoriamente avesso a trabalhos  braçais, que sabia precisar de uma válvula de escape para  melhorar  o  status quo. Longo e  penoso processo. Estabeleceu-se assim, a  fama de alguém que gostava de estudar, ler, e era, muito, bastante, curioso;  polemico, questionador, as vezes,  inoportuno. O embrião  de um espirito belicoso,  com viés filosófico, apaixonado por História  e com o sonho –  no fundo da alma -,  de  escrever crônicas que satisfizessem aquela  ansiedade que me consumia, como fogo no monturo.

Essas sensações ficaram inibidas, tolhidas,  escondidas em algum lugar da  alma.  Subjugadas  pelo adulto   real tentando  sobreviver na sociedade  consumista,  cujo síntese é : subir na vida, casar-se, ter um emprego,  formar  família, com  filhos, casa;  ser um cidadão civilizado, cristão, como aquela pessoa tão bem construída   no  poema cantado pelo cearense  Belchior, Conheço Meu Lugar:

“O que é que pode fazer o homem comum/nesse presente instante/senão sangrar tentar inaugurar/a vida comovida/inteiramente livre e triunfante.”  O Peter Pan cresceu, ou foi crescido. Estudou, terminou o ensino médio, casou-se, prestou  concursos, em uns não passou, em outros sim, enfim tornou-se  cidadão. Embora moldado pelo dispositivo – e isto não é uma crítica -, abstrações, sendo digamos, cerceadas pelo  cotidiano, sobraram algumas fagulhas, brasas acesas daquele  homem natural, selvagem,    que mesmo manietado  na estrutura, ainda se movia,  emergia, vez ou outra.

Dentre estes estão  a capacidade de indignar-se, apego ao debate,  – cada vez diminuindo -, e principalmente, a curiosidade. Esta, embora o corpo se curve inapelavelmente aos problemas advindos da idade cronológica, insiste, resiste, persiste em ser , graças a Deus,  ativa. Sendo assim, posso continuar entoando a belíssima canção do genial Belchior:

Não você não me impediu de ser feliz/ nunca jamais bateu a porta em meu nariz/ninguém é gente/nordeste não é uma ficção/nordeste nunca houve/não eu não sou do lugar/dos esquecidos/não sou da nação/ dos condenados/não sou do sertão/dos ofendidos/você sabe bem.”

CONHEÇO MEU LUGAR…CONHEÇO MEU LUGAR…CONHEÇO MEU LUGAR.

João Carlos da Silva Costa Leite, nascido em Matinha, bancário aposentado, cursou Filosofia na UFMA. É membro do FDBM -, Fórum em Defesa da Baixada Maranhense e da AMCAL – Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras, ocupando a cadeira 17, patroneada por Maria José da Silva Costa Leite.


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