Artigo de João Carlos Costa Leite: Netos, dádivas divinas

Um dos meus maiores temores, transformou-se em fator positivo, após o acontecido. Hoje, perplexo, reflito como fiquei tanto tempo sem essa benção em minha vida: os netos. “Avô é pai com açúcar “, diz frase que li não sei onde. Bela definição, abrange, espelha, creio eu, o impacto que nos assoma, quando essa geração surge no horizonte já crepuscular da existência. A misericórdia de Deus permitiu-me usufruir diversas fases, que engrandeceram, matizaram, moldaram, a longa caminhada até aqui. Acredito ter crescido, evoluído, ao atravessá-las.

Escritor de Matinha fala sobre a felicidade de ter netos

Obviamente, sentimentos inerentes a vida, estiveram presentes em todas elas. Desse modo, batalhas ganhas, perdidas, intempéries, calmarias, alegrias, tristezas, amores, desamores, amizades, inimizades, etc. fundamentos os mais contraditórios possíveis, foram expostos, enfrentados. Na linha da Dialética Hegeliana, vejo a fobia de ser avô, como tese; o aparecimento dos netos, antítese; a mudança abissal pós acontecimento, síntese. É aquilo que o cantor e compositor paraibano Chico César descreve na belíssima, pungente canção, Estado de Poesia:” Me entranharia nestes sertões de você/ para deixar a vida que eu vivia/ de cigania antes de te conhecer/ de enganos livres que eu tinha por que queria/ por não saber que mais dia menos dia/ eu todo me encantaria pelo todo do teu ser” . Um amplo mergulho ontológico.

Maria Eduarda, Maria Júlia e Yuri. . Por razões fora da minha alçada, o contato com as primeiras, tornou-se raro, mas isso não muda o amor que sinto. Quando Yuri chegou, pensávamos que seria um neto a mais. Ledo engano! Como canta Chico Buarque, na modinha Teresinha: “ Foi chegando sorrateiro/ e antes que eu dissesse não/ se instalou feito um posseiro/ dentro do meu coração.” Um militante do amor, a começar pelo nome de origem eslava escolhido. Ainda não saído do útero materno, já ocupava o latifúndio improdutivo dos Chaves Costa Leite.

Trouxe amor, concórdia, sacrifício, respeito, companheirismo, solidariedade, inspiração, carinho, fraternidade, esperança, compreensão. Sensações adormecidas ou deixadas de lado no percurso traçado. Seu nascimento veio iluminar nossos caminhos. Meu cotidiano ficou intrinsicamente dependente dele do amanhecer ao anoitecer. Quando está com Antonia e eu, o júbilo é geral, ao ficar para dormir é o ápice, o pícaro, da felicidade. Poder abraçá-lo enquanto ressona ou nos toca com seus pezinhos, contém encanto inexprimível. Vibramos nestes três anos com sua evolução, a cada novo passo dado, palavra efetuada, riso expressado. Sofremos com as tosses aparecidas, choro de dor, agulhadas no hospital, febre ocorrida.

Maria Júlia, Yuri e Maria Eduarda

Transformou-se no tema favorito das conversações: recuperou minha fé na humanidade, a vontade de viver; ressignificou o amor a Deus e sua Providência. “ estava mais angustiado/ que um goleiro da hora do gol/ quando você entrou em mim/ como o sol no quintal”. Foi como essa estrofe da música Divina Comédia Humana, do cearense Belchior. Os tormentos, inseguranças, desânimos, desalentos, depressões, que anuviavam o futuro, acinzentando o tom, a realidade; acabaram empurrados pelo fenômeno Yuri, abriu-se então belíssima aurora boreal, um mundo de indefectível esperança e fé. Vejo -me em Matinha, pescando nos igarapés, tirando bicho de tucum, tomando banho de chuva, fazendo o que adoro, ao seu lado. Minhas utopias, outrora abandonadas, retornam agora, gloriosas.

É o conceito da ataraxia, ideal que o filosofo grego Epicuro propugnava, e traduzia -se por ausência de inquietude/preocupação, tranquilidade de ânimo. Impressionante, o exalar de amor que um serzinho tão pequeno, frágil, apresenta . Aparou nossas arestas, amalgamou o clã. A pouco mais de 1000 dias, ele nem existia, era apenas massa informe no ventre da mãe, conforme salmos 139, 16, e hoje quão é importante para nós. Vem-me à mente, passagens do livro O Pequeno Principe, do francês Antonie Saint Exupéry.

Valentim

“ Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas, eu fiz dela um amigo. Ela agora é única no mundo”; “ Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”;” Se tu vens às quatro da tarde, desde as três começarei a ser feliz”. Cada uma dessas frases, tem algo a ver com ele. Nos cativou, criou laços, colocou responsabilidade nos pais, avós, tios e tias. O fortúnio toma conta da alma, quando está no nosso meio. O coração bate em outra vibe, somos tomados de felicidade.

Quedamos -nos fascinados, ao ouvi-lo falar “ Tátia”, como chama Flavia; “Tio Guga”, para Gustavo; Tia Maya” para Mayla,” Vovó”, Vovô”,” “Papai”, “Mamãe”. A casa, tão pequena, parece enorme em sua ausência. Envolvimento absoluto,derretimento completo, paixão incontida, sem tamanho. Fomos sequestrados, estamos reféns, no bom sentido, desse amor sem dimensões. Já canta o hino do Flamengo, corinhos da IPI, por influência dos tios. Reconhece Lula na televisão, e estou, de modo gradativo, falando sobre as agruras da vida, filosofia, gosto musical, xadrez etc. Logicamente, tentarei interceder para que propenda ao PT. Ano passado, juntou-se aos três, o Valentim, filho de Fernanda Teixeira, nosso neto por afinidade e do coração.

Netos e netas são dadivas divinas. É Deus nos ofertando uma nova chance.. São o desabrochar de um momento em que sem suas presenças, o mundo seria soturno, sorumbático. Perderia beleza e alegria.

João Carlos da Silva Costa Leite, nascido em Matinha, bancário aposentado, cursou Filosofia na UFMA. É membro do FDBM -, Fórum em Defesa da Baixada Maranhense e da AMCAL – Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras, ocupando a cadeira 17, patroneada por Maria José da Silva Costa Leite.


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2 respostas para “Artigo de João Carlos Costa Leite: Netos, dádivas divinas”

  1. PARABENS SR. JOÃO. EMBORA NÃO CONHEÇA, MAS VEJO QUE DEVE SER UM BOM HOMEM. UM PAI E AGORA UM AVO EXEMPLAR, QUE SE ORGULHA DA CONDIÇÃO DE SER AVO. PESSOAS COMO O SENHOR ESTÃO EM EXTINÇÃO. QUE O SR. CIONTINUE NA SUA LUTA POR MELHORES DIAS AOS SEUS NETOS E A SUA FAMILIA.

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