Artigo de João Carlos: Pescar com Juvêncio Capijuba, um tratamento terapêutico pra vida toda…

Das muitas formas de lazer e esportes que a minha geração oportunizou participar, a mais importante de todas é sem sombra de dúvidas a pescaria. Assisto, gosto e até pratiquei uma ou outra – são tão poucas que nem cabem nos dedos de uma mão -, porém a menina dos olhos é a pescaria. Pescar está de tal modo arraigado em mim, que até o meu nascimento aconteceu em seu mister. As dores do parto de mamãe se acirraram em função de papai no dia anterior, 14 de dezembro de 1961, ter sido furado pelo esporão de uma arraia, pescando de socó. Esse susto antecipou para o dia seguinte, minha chegada ao mundo.

Lembranças de João Carlos…

Nasci, cresci e vivi, num ambiente onde a pescaria era sempre o principal assunto, quer fosse no inverno, ou no verão. Papai, embora com parco conhecimento em termos de estudo formal, possuía com relação aos peixes, ou a sua forma de pegá-los uma filosofia, algo empírico, que se diferenciava do habitual. Quando indagado por que pescava, retrucava:” pescar pra mim é um paliativo”. Esta resposta causava estranheza, a começar pelo próprio verbete em evidência, desconhecido para a imensa maioria das pessoas.

PALIATIVO, segundo o dicionário, é aquilo que alivia ou cura momentaneamente uma dor, uma angústia; abranda, acalma, um problema. O que hoje é receitado por psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, médicos do trabalho, cardiologistas, comum e rotineiramente, como um tratamento terapêutico, era de modo visionário já antecipado por ele, a quarenta anos atrás. “Quando eu tô pescando”, dizia, “esqueço todas as atribulações”. Para Juvêncio Costa leite, o Capijuba, pescar não era uma mera ação de sair de casa, com um anzol ou socó, e voltar com o cofo cheio de peixes, comer e acabou.

Transformava-se num ato quase solene, com liturgia própria, repleta de simbolismos, todos conectados, interligados, cujo desenlace final, após o saciar-se fisicamente, resultava em prece de agradecimento a Deus. Uma satisfação espiritual. Uma apoteose. Considero-me privilegiado, por ter participado, juntamente com muitos, que ainda hoje vivem, outros que já não estão mais conosco, desses momentos ímpares. Começava no “ vou me arrumar, me preparar”, pra ir pescar. Com essa frase, a pessoa ia colocar camisa, uma calça ou bermuda, chapéu, todos velhos, rasgados, desbotados, o que é diametralmente o oposto de “ arrumar, preparar”.

Fazia questão de ter tudo bem organizado, no jeito para as pescarias. Sistematizados de modo simples, mas acessíveis e razoavelmente distribuídos em seus espaços definidos. Nada era aleatório ou desordenado. Queria ver ele brabo, era não encontrar nos seus devido lugares qualquer um dos apetrechos de pesca. Ficavam no mesmo espaço : os caniços de amejuba/ tauari, já com os anzóis instalados; o cofo, tendo engatado por dentro os anzóis sobressalentes, prontos para qualquer eventualidade; na cumieira o púcaro de margarina, ou latinha de manteiga, com os bichos de tucum salpresos.

Todos bem próximos, para não ter demora, ou atrapalho quando precisasse sair de casa. No chão estavam os socós, os patachos, as foices, o machado, dentre outros materiais de uso na roça e de funilaria. Tudo acontencionado dentro da casinha onde ele também fazia suas lamparinas, e rebites para conserto de fornos de farinha. A liturgia seguia seu rumo normal. Se a pescaria fosse de anzol e dependendo da distância, saiamos lá pelas dezesseis horas , em grupos de várias pessoas para pegar os bagres, ou jandiás, ao cair da noite. No “lusco, fusco”. Se fosse de socó, era bem de manhazinha, as quatro horas, no “ cagar dos pintos”, quando ainda estava no soturno. Íamos para os poções, buscar traíras, jejus, piranhas…

Poderia explorar, e teria muito conteúdo sobre a forma, métodos, modelos, significações, representação, ações, relativas a essa arte que papai
utilizava. Suas reações, gestos, palavras, atitudes durante os eventos, dariam certamente um romance, ou novela da vida real. Trata-se de vasto conteúdo, com elementos capazes de entreter, sensibilizar, emocionar. Os desdobramentos, as etapas, desse cerimonial, dessa atividade tão importante para ele, mamãe, logicamente para nós seus filhos, netos e gente da comunidade, marcaram indelevelmente quem o rodeava, deixando sinais evidentes no nosso modo de enxergar o mundo.

Só praticava dois tipos: de anzol, – no campo e principalmente nos igarapés – a noite, durante o inverno. E de socó, durante o dia, no verão. As outras modalidades não o apeteciam. Tinha ojeriza a tarrafas ou redes, dizia que os peixes ficavam em desvantagem. Não pescava piabas, piranhas, secava poça, fazia tapagem, toldava agua, facheava, fazia jirau, pegava acará preta etc.. diferentemente de mim que praticava a todas.

Foram muitas as pessoas, amigos meus, conhecidos, que foram iniciados no oficio por Capijuba. Além disso tinha aquela turma que mesmo já sendo contumaz, gostava de ir aos igarapés com ele, sentiam-se bem em estar ao seu lado, pescando, ouvindo histórias, curtindo seus papos, suas brincadeiras. Participando enfim daqueles momentos. Quando o sol começava a baixar, iam aparecendo, entrando pela casa, cofo nas costas, bichos de tucum nos recipientes, lanterna e facão nas mãos, prontos para a aventura. Tentarei aqui, já pedindo perdão em cometer alguma injustiça, que certamente ocorrerá, por não incluir este ou aquele nome, no que se refere a pessoas que lembro, participavam ativamente conosco: Começando lá de perto, Nonato, George, Kebinha, Sergio Aroucha, Neto e Dominguinhos( já falecido), de Domingos de Vinoca; Gilvan e Pretinho de João Barica; (falecidos), Rovinaldo, Moreno, Ganjo, Benedito de João Lima, Rui e Cesar(já falecido), meus sobrinhos; Gerson de Nazaré – Jarbinha- (já falecido), João e Valdemir de Osias, Cadiô, Zé Manoel, Dorgival, Cesar de Miriam, Zé Ribeiro..

Os locais também eram muitos e variados. Ele tinha os seus pesqueiros prediletos, igarapé de Tancredo na Água Comprida; Camucá, igarapé de Buranga, de Gongo, Rosa Maxixie; na boca do bamburral do Galego, igarapé de Jorge., da Patrocina….etc.. Havia os pontos onde não gostava de ir, o igarapé do quebra bunda, no caminho do São José , no rio Piraí. Nunca explicou o porquê. Conviver com papai, com seu rito de pesca, nos trouxe aprendizados que carregamos para a vida, nos marcaram, nos divertiram, e acima de tudo moldaram nossas personalidades. A maneira lúdica, sábia, sua forma de ver aquela atividade como algo além de uma mera busca pelo pão de cada dia, envolvia nossos corpos, mentes, nos ensinava.

Numa paráfrase a Geraldo Vandré, quando viu no Festival Internacional da Canção, sua música “ pra não dizer que não falei de flores”, perder para “sabiá” de Chico Buarque, sendo ovacionado por 20 mil pessoas no Maracanãzinho e gritou: “ pessoal, a vida não se resume a festivais”. Do seu jeito, papai também queria transmitir “ a vida não se resume a pescarias”. Mas podemos retirar dela o ensinamento, a filosofia, e os bons fluidos para nossa existência toda. Aprender a pescar com Juvêncio Capijuba, ouvir suas frases de efeito, entender os meandros daquela liturgia aparentemente banal, porém com tantos simbolismos, foi a aula mais comprida e importante para mim.

João Carlos da Silva Costa Leite, nascido em Matinha, bancário aposentado , estudante do curso de Filosofia da UFMA. Membro fundador da AMCAL , Academia Matinhense de Ciências , Artes e Letras onde ocupa a cadeira 17.

2 respostas para “Artigo de João Carlos: Pescar com Juvêncio Capijuba, um tratamento terapêutico pra vida toda…”

  1. João Carlos, li atentamente seu artigo sobre a pescaria e as ações de seu pai, Juvêncio Capijuba. Parabéns pela riquezade de detalhes, muito peculiar aos matinhenses de raiz, esse lado e artifício de teu pai na pescaria, não conhecia, mas lembro que por várias vezes fui à casa dele , na oficina , onde ele confecionava as famosas lamparinas, lembro que a casa de vocês ficava num ponto alto de uma barreira , acessada por um caminho de quem ia apés e lateralmente dessa barreira de tons avermelhados, mesclado de tabatingas, da parte baixa , uma estrada com mais espaços para quem desejasse ir montado a cavalo e seguir em frente. Considero teu pai um dos primeiros artesão de Matinha. Comprava a lamparina lá e depois ia à quitanda de seu Melquesedeque Penha Braga, comprar querosene, ( um dos comércios mais antigo de Matinha) . Uma artesã comtemporânea de teu pai, João, foi a Joana Serra Santos, ( mais conhecida como Tajanim entre os familiares). Era uma animadora cultural dos festejos religiosos , como Natal, Pascoa etc. Era o momento que ela conseguia juntar protestantes e católicos com a mesma missão: representar o auto de Natal do nascimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A cidade se movia nesse momento , João Lima , sempre cedia peças de tecido azul,para fazer o céu. As estrelas eram feitas até do papel laminado que forravam as carteiras de cigarro. A carência era muito grande de material na época,. Os participantes iam comprar tecidos de seda no comércio de Bibi Gomes, para fazer as roupas. No final das comemorações , ela oferecia com muita fartura, muito bolo de tapioca e variantes de milho, regado de um saboroso chocolate e café. Foi uma artesã de mão cheia. Confeccionava cobertura para tamancos e chinelos manufaturados com fibras de folhas de tucum verde (brotos de folhas novas).
    Pois é João, quando estiverem registrando sobre os atesãos de Matinha, não pode faltar o nome de teu pai, responsável pelas luminárias das casas de Matinha, antes do petromax e da luz elétrica. E também da Tajanim que fazia sua arte explorando os recusos naturais de sua terra. Na época deles , houve outro nome que não citei? Não quero ser injusto, se souberes acrescenta. Sinto em você , um grande parceiro no resgate das boas memórias da nossa querida terra.

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