Artigo de João Carlos: Eu e a música, um amor não correspondido

A célebre frase do filósofo, crítico cultural, filólogo e compositor alemão Friedrich Nietzsche, “ a vida sem a música seria um erro”, caracteriza bem a importância dessa manifestação artística na história humana. Considerada uma das sete formas de arte( as outras são, dança, escultura pintura, teatro, literatura e cinema..), a música é uma unanimidade, e transita entre o profano e o sagrado, ricos e pobres, homens e mulheres, com extrema desenvoltura, servindo para extravasar, tornar visíveis, demonstrar, incluir, interpretar, revelar, o multiverso da nossa alma e coração.

João Carlos

Minhas primeiras lembranças de música, som musical, etc.. remontam a mais tenra infância. Recordo das batidas ritmadas de papai no ferro de forjar os flandres, quando da preparação de lamparinas. Esses sons possuíam o efeito de dormentar-me.  Sua voz cadenciada, as canções de Chico Alves, Adoniram Barbosa, Herivelto Martins, Dalva de Oliveira, Carmem Miranda, irmãs Batista, Nelson Gonçalves, dentre outros, que ele solfejava com voz suave, as vezes assobiando, entravam no meu ouvido de forma límpida, diáfana, proporcionando imenso refrigério.

Através dos meus pais fui iniciado no mundo de sons. Papai no aspecto mundano, embora muitas vezes, trauteasse hinos da IPIB. Mamãe, nos cânticos religiosos, auxiliada por vovó Lola e Tchem; não obstante, em algumas ocasiões, entoasse outros ritmos. Havia absoluta simbiose entre os dois, um influenciando o outro, no sentido mais positivo possível. Ela cantava o que papai gostava: marchinhas carnavalescas, – “ Eu vou pra Maracangalha, eu vou”…; – “Cadê Brigite, cadê Brigite, Brigite Bardot,…onde Brigite estiver eu vou” “- Chiquita bacana lá da Martinica, se veste com uma casca de banana nanica”; toadas de Bumba boi, – “Não me leve pro Santeiro, que lá eu não vou…no Santeiro tem visagem, no pau grande roncador”; – “ Soldado de fora que vem pra Matinha, vem só pra morrer”; “no Aquiri teve um baile que a bala comeu, quem tava dentro escapou, quem tava fora morreu”

Ele executava hinos: “- Foi na cruz, foi na cruz..” “- Glória, glória aleluia”; Corinhos: “- Quem quer Jesus levante a sua mão, não perca a oportunidade de tão grande salvação”, “- Meu barco é pequeno, e grande é o mar, Jesus segura minha mão”; etc.. E Assim seguiam…São ternas as lembrança das interpretações de cantores cristãos como Luis de Carvalho, Feliciano Amaral, oriundas da casa da nossa vizinha, a irmã Amanda, – dona Dinoca -, essas canções eram efetuadas com vozes maviosas, que me faziam perder a noção do tempo. Singela adoração, uma forma mais que perfeita de contactar a Deus. Éramos ouvintes assíduos dos programas de rádio, a televisão ainda não estava no nosso dia a dia. Duas rádios dividiam atenções: A Educadora, de propriedade da igreja católica, e a Difusora, da família Bacelar.  s outras emissoras, Ribamar e Timbira, não chegavam com suas ondas curtas a Matinha.

Pela manhã havia uma programação de música sertaneja, não essa coisa ruim de agora, mas cantores nordestinos, Luís Gonzaga, Trio Nordestino, Jackson do Pandeiro, Marinês, João do Vale, que ia até as sete horas da manhã. A partir daí, entrava em cena o “ quem manda é você”, com José Branco, audiência plena nas manhãs de segunda a sexta, com muita música. As dezesseis horas, voltavam as sertanejas, desta vez sob o comando do locutor Jairzinho da Silva. Sucesso total até as dezoito horas.
Deus não me proporcionou dom algum, no que se refere a artes. Não sei cantar, pregar ou discursar. Amo a música, mas esta quer distância de mim.
Houve uma época, que Nonato meu primo, um cara altamente perfeccionista, ouvido hipersensível, que comeiseguia encontrar imperfeições, onde ninguém achava, começou a tocar violão na sua oficina de consertar rádios, embaixo do velho casarão de Juca Amaral. Enchia de garotos ávidos para aprenderem com aquela pessoa tão habilidosa. Todos assimilaram, e tocavam em sol, ré, mi, fá, sustenido, até dissonantes. Fui o único a destoar. Mesmo a batida básica, simples, da canção “ a casa dos meus sonhos”, meus ouvidos e dedos, não conseguiram se adestrar. Uma vergonha planetária.

 Embora papai não gostando de Roberto Carlos, a gente ouvia muito “eieiê”, a chamada Jovem Guarda, o estilo musical que a ditadura militar permitia, e era pautada nas rádios. Cantores como Paulo Sérgio, Antonio Marcos, Vanusa, Wanderleia, Vanderlei Cardoso Marcos Pit, etc… faziam sucesso. Lembro da primeira vez que ouvi o nome LP,(Long Play, o disco de vinil); foi através de uma prima que morava em São Luís, e estava passando férias na cidade. Fiquei com vergonha de perguntar o que era aquilo. O país vivia os anos de chumbo, período da ditadura militar, que fora instalada em 1964, com a deposição de João Goulart. Vários artistas e políticos eram presos ou exilados pelo regime vigente. Dois partidos políticos tinham permissão para existir: A ARENA (Aliança Renovadora Nacional), e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro). O primeiro representava o governo, o segundo os contrários, era a oposição consentida. Piadistas como sempre, os brasileiros diziam que um partido significava SIM, o outro, SIM SENHOR.

Na área musical, essa disputa também aconteceu. De um lado os cantores da jovem guarda, capitaneados pelo “rei da juventude”, epiteto pelo qual RC era conhecido, acompanhado dos que já foram citados acima, trazendo um ritmo mais dançante e próximo do modelo estadunidense, versos de fácil rima, e retórica baseada no amor e paixão. Sem disputa com a ditadura, era escutada por jovens das classes médias e altas, reverberada nas rádios AM e vitrolas, bem como em festas regadas a álcool e drogas sintéticas. Do outro lado a chamada MPB (Música Popular Brasileira). Com cantores numa batida diferente, seguidores em muitos aspectos ao movimento da Bossa Nova, um padrão de música que foi criado na segunda metade da década de 50, por João Gilberto, Tom Jobim , Vinicius de Moraes e que alcançou fama internacional.

A MPB possuía um outro tipo de mensagem: letras e rimas mais elaboradas, ricas e diferenciadas, preocupação com temas sociais, políticos, não só assuntos amorosos e fúteis, como a jovem guarda. Obviamente incomodava o regime de exceção, que para ter o domínio sobre essa expressão artística, bem como de outras congêneres, criou a censura federal, um órgão ligado a Policia Federal e ao Ministério da Justiça, com o objetivo de analisar previamente, podendo praticar censuras, efetuar cortes totais ou parciais, a quaisquer obras antes do seu lançamento ao público.  Desse modo centenas de músicas, novelas, peças teatrais, reportagens em revistas, jornais, foram podadas, por pessoas quase sempre sem nenhum conhecimento do tema. Os cantores da MPB eram bastante visados.

Meu primeiro contato com a MPB deu-se lá pelos dez ou onze anos de idade, (até então só conhecia o” eieiê”, e foi de modo bem interessante. Eu gostava bastante de ficar sentado ouvindo conversas de pessoas mais velhas. No muro de dona Euzébia e Juarez, ao fim das tardes, em época de férias escolares, jovens filhos de famílias tradicionais, bem aquinhoadas financeiramente, que estudavam em São Luís ou Viana, tinham o hábito de ficar em colóquios , abordando os mais diversos assuntos. Ali tomavam sucos, bebiam cachaça” Belas Águas” com limão, proseando até a noite cair. Aquele ambiente me fascinava, pois desses papos informais, aprendia coisas que não existiam no meu cotidiano. Não foram poucas as vezes, que junto com o conhecimento, vinham também “cascudos” e cachuletas, pois além de escutar, gostava de ficar perguntando, e cá pra nós, era muito impertinente.

Certa feita os ouvia como de costume, quando a parla rumou para os festivais da canção, diferença entre as formas de músicas, programas televisivos, eventos que eles tinham acesso por morarem na capital. Então um deles começou a cantar “ – diz que deus, diz que dá, eu não vou duvidar ó nega; e se deus negar, como é vai ficar ó nega? Deus dará, deus dará…”.- Quem é esse cantor ? Indaguei no melhor estilo de intromissão. Chico Buarque, respondeu a pessoa, num modo displicente, após a terceira interrogação. Fiquei impressionado: quem era esse Chico Buarque? Que música estranha era essa? Por que eu nunca tinha ouvido falar dele? Foi meu primeiro contato com a Música Popular Brasileira. Uma imediata, intensa e eterna paixão.

Quando fui morar em São Luís, oportunizei conhecer a MPM – Música Popular Maranhense -, Papete, Josias Sobrinho, Chico Maranhão, Rogerio do Maranhão, João do Vale, dentre outros, começaram a povoar meu universo musical. Sou bastante frustrado em nunca ter aprendido tocar qualquer instrumento. Acho fascinante as pessoas conhecerem a simbologia das partituras, é nesse momento que sacramenta, desnuda, escancara, meu analfabetismo musical. Cantar, até me atrevo de vez em quando. Na igreja cheguei a participar de alguns corais natalícios, mais por bondade, carinho, de algumas irmãs dirigentes das programações, que por merecimento.  Meu namoro com Antonia teve a trilha sonora das canções de Guilherme Arantes, ficamos tão apaixonados por suas músicas, que nosso filho mais velho tem seu nome.

Hoje, quase festejando seis décadas de vida, sinto-me bem à vontade para gostar e desgostar de algum tipo de estilo musical. Minhas preferencias são cristalinas: não ouço ou canto música sertaneja, sertanejo universitário, que considero um palavrão; gospel só na igreja, mesmo assim tem algumas letras, que me nego peremptoriamente a cantar.  Chico é meu cantor predileto, não vejo ninguém que componha ou cante como ele. Escuto basicamente MPB, MPM, avalio que no país temos hoje uma plêiade de bons cantores e intérpretes. Também curto uma música clássica de vez em quando. Digo sempre que esse gosto por sons de qualidade, junto ao aprecio por boas comidas, são resquícios da herança burguesa, do DNA dos Silva, colonizadores de matinhenses.

No fundo, no fundo, mesmo que não verbalize, fica a frustração de não ter conseguido aprender cantar ou tocar. Como consolo, a satisfação de ver em Gustavo essas habilidades sendo efetuadas.

João Carlos da Silva Costa Leite, nascido em Matinha, bancário aposentado , estudante do curso de Filosofia da UFMA. Membro fundador da AMCAL , Academia Matinhense de Ciências , Artes e Letras onde ocupa a cadeira 17.

2 respostas para “Artigo de João Carlos: Eu e a música, um amor não correspondido”

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