Artigo de João Carlos: Juvêncio Capijuba, meu pai

Sua data de nascimento não era muito exata, mamãe falava em 1916, parece que no registro, houve uma divergência tanto no mês quanto no ano. É tudo muito nebuloso, na certidão aparece 20 de setembro de 1918.

João Carlos

Os filhos de Luís Pereira,- segundo informa meu primo Zito-, um sarará quase albino, de intensos olhos azuis, antigamente chamado gázeo e Augusta Costa Leite, afrodescendente; foram sete: Inocêncio, Faustina, Joana, Sebastiana, Roberto, Justo e Juvêncio. Deveria ter muito amor envolvido. Vovô Luís ainda teve mais dois filhos de um segundo relacionamento.
Não tive informações se chegaram a casar, mas certamente viviam ou conviviam bem, afinal tiveram sete filhos.

Os nomes dos filhos, foram fortemente influenciados pela tradição católica, todos com menções que não sei se levaram em conta a data de nascimento, obedecendo o calendário católico, ou outra referência. Inocêncio significa que não comete o mal; Juvêncio, juventude. Tio Justo, foi batizado com um nome ao mesmo tempo excêntrico e pomposo. De acordo com relatos de mamãe, chamava-se Justo Juiz Divinal, que é nada mais nada menos, uma das muitas formas pela qual Deus é denominado.

Outro fato curioso, que merece alusão, deu-se com relação aos sobrenomes. Todos os filhos, exceto papai, foram registrados como Pereira, sobrenome do velho Luís. Só Juvêncio, não sei por que cargas d’agua, saiu do cartório com o registro da mãe, Costa Leite.  Quando vovó Augusta faleceu, a informação que tive foi que os meninos, ainda pequenos, papai parece que só com doze anos, foram morar com uma irmã do meu avô, chamada Doca Criados com rigidez e dificuldade, por essa mulher forte e austera, que também tinha um filho, Barbosa, os rebentos de Luís Pereira, desde cedo aprenderam um ofício, como eram chamadas as profissões.

Inocêncio foi ser ferreiro, papai funileiro, não esse profissional que hoje trabalha consertando carros, mas confeccionador de lamparinas, e consertos de fornos de farinha, alambiques, em casa de engenho. Tio Barbosa, o filho biológico de Doca, também aprendeu um ofício, virou alfaiate. Ainda lembro dele, com papai e tio Inocêncio, depois de muito rodar, coincidentemente, acabaram fixando residência em Matinha.

Não tenho muitas informações sobre a sua infância e adolescência. lembro de ouvi-lo falar que foi sofrida e pobre. Citava bastante um padre chamado Felipe, acredito ter sido esse sacerdote, o responsável pela sua educação, tanto regular, (só até a quarta série), quanto profissional.
Provavelmente foi a influência de padre Felipe responsável pela moldura de alguns aspectos da sua vida, personalidade, modo de agir, falar, pensar.

Logo muito moço começou a percorrer as cidades da Baixada. Por saber jogar futebol,( foi um bom lateral direito), atuou em muitos times e seleções pela região. Fazia todo esse deslocamento a pé. Percorria, naqueles tempos sem carros, de caminhos em vez de estradas, léguas e mais léguas,(chamava assim), entre uma cidade e outra, e ainda participava do jogo, as vezes no mesmo dia. Todo sanbentuese possui no mínimo um apelido, papai tinha dois: Capijuba, uma referência ao macaco mais comum em nossas plagas; e Lampião, dizia ser por causa da sua testa alta.

Essa tradição dos moradores da terra dos muçuns, do queijo, das jaçanãs, vem de tempos antigos. É um povo extrovertido e brincalhão, galhofeiro sem limites. Antonio Carlos Rabelo, que foi meu gerente no BEM,- Banco do Estado do Maranhão-, nascido em São Bento, e que como todos, também tinha um epiteto, era conhecido por Bacharel, relatava muitos causos, (e ele era bom nesse quesito ,como aliás a maioria dos seus conterrâneos ), sobre esse peculiar costume. Contava que determinada senhora, famosa por cravar em quem chegasse na cidade cognomes, certo dia, quando da chegada de um juiz novo, foi questionada por alguém se tinha já nome preparado para o magistrado, ela muito compenetrada, respondeu: – Eu não, tenho medo desse cara de maracujá de gaveta. Pronto, estava batizado.

Fazer lamparinas, naqueles tempos sem energia elétrica, era uma profissão razoavelmente rentável, dando a papai uma certa liberdade de exercitar seu espírito aventureiro, fazendo o que gostava, jogar bola e namorar. Mamãe falava de uma filha que tivera com uma senhora em Penalva, nunca a conheci. Em Matinha criou laços de amizade com um casal e seus filhos, chamavam-se Norberto e Camu, moravam próximo ao Campo do Brasil. Eram como se fossem a própria família dele.

Casou-se em primeiro matrimônio com uma moça da Santa Vitória de nome Estefânia, tendo com ela três filhos, dois homens e uma mulher. Sua primeira esposa faleceu do parto do terceiro filho. No intervalo entre a morte da primeira esposa e seu segundo casamento com mamãe, ainda teve alguns casos amorosos, depois de Maria de Lola, sossegou o facho. Com mamãe nasceram quatro rebentos, um faleceu, Juvencinho, a quem chamávamos de Mano, sua filha do primeiro casamento também faleceu, já morando com mamãe, aos nove anos. Sou o quarto filho do segundo matrimonio. No meu nascimento já estava com 43 anos.

Quando comecei a me entender por gente, era um quase cinquentão. Conheci um Capijuba mais ameno, menos irascível, e é essa a imagem que guardo dele, é esse homem que tenho o prazer, privilégio, satisfação e orgulho de revelar e bradar de modo altissonante: JUVENCIO CAPIJUBA, MEU PAI. Como não lembrar quando chegava em casa com um pau de lenha no ombro, o cofo com os apetrechos dentro, os galhos de vassoura para limpar o quintal, o patacho continuamente amolado?

Sempre amoroso e solícito, quando vinha de pescar, quer seja de anzol (a noite), ou socó, (durante o dia), o vinho de coco (indispensável), já pronto, apanhava uma tesoura e ia ajudar mamãe preparar o peixe, cortando todos as abas e esporões. Parecia nunca cansar.
Usava algumas palavras estranhas para a população da época, incompatíveis com sua escolaridade. Isso causava àquele povo ignorante, sentimentos de preconceito, sarcasmo e ironia. Credito isso, ao contato que ele tivera com o padre Felipe, provavelmente em homem de vasto conhecimento e vocabulário rico.

Verbetes até então desconhecidos, saiam da sua boca constantemente, traduzindo o sentido correto do dicionário: hábito, sobressalente, paliativo, aranzé, quinhão, ilusório, engendrar, remisso ,agruras, aziago, místico, fortuna, mal enjorcado, azougue ,rebite, alforje, arroba, alqueire, gibreu fiúza, poltroso, vasqueiro, agasalhado, engastalhado, fulano, sicrano, beltrano, são alguns exemplos. Quantas vezes fiquei calado, envergonhado, vendo e ouvindo, principalmente de pessoas próximas, parentes, olhares, frases irônicas, refletindo a ignorância, preconceito, e obscurantismo, quando papai pronunciava essas palavras.

“Maria tem o hábito de comer farinha”; “ Pescar pra mim é um paliativo”; “Essas galinhas estão fazendo um aranzé”; “ O que vocês estão engendrando?”; “Hoje os peixes estão remissos”; “ São as agruras da vida”; “Esse jogador é um azougue”; “ O terreno fica místico com de Antonio”; usava a palavra “ místico”, não no sentido comum, significando mistérios religiosos; mas na acepção raramente vista gramaticalmente, como próximo, anexo. Poucos dicionários trazem essa informação, aparenta ser de um português arcaico. Durante anos achei que errava ao usar o termo.

“Ninguém faça o mal, na fiúza de viver bem”; “ Era muito mal – enjorcado”; “Tô fazendo gibreu”; “Os peixes estão vasqueiros hoje”; “ Ele acordou muito poltroso”; ;“Mole que nem banana de alforje”; “ O anzol tava engastalhado”; “Nem Fulano, Sicrano ou Beltrano”. Escrevi acima, uma mostra das muitas frases cotidianamente utilizadas , e que, como já foi descrito, serviam de zombarias a turba ignara. Fazendo jus a sua origem, – aliás, ele não gostava muito de comentar sobre aquela história famosa de fundo homofóbico, que fala do poção e do avião que quando sobrevoa os campos de São Bento, afina o barulho do motor-, papai como todo bom sanbentuese, adorava aplicar alcunhas.

Aos inimigos, que não eram muitos, apelidos grotescos e as vezes com referências não recomendadas a menores de idade. Aos amigos, filhos e netos, todo o carinho do mundo: Os filhos, Lauro, era Lalá; Tarcísio, que foi adotado ainda pequeno por parentes da esposa falecida, Cici; Dionísia, a filha com Estefânia, Dudu; Luís Augusto, meu Lu; Sebastião,(Palá) Baíco; Juvencinho, Mano; eu, Carromblé ou Jamba; Elizabete, dona Bete. Os netos: Rui era Cabo Rui; Guilherme, Gustavo e Renan, Cupade Guigui, Tavinho e Nanan; Ana Flavia, Flavinha.

A batida ritmada no ferro preparando lamparinas, as visitas dos amigos e sua relação com estes.O carinho recíproco com os meninos da vizinhança. As conversas, os causos, são memorias que não cabem num só texto. As pescarias, ah, As pescarias!, são capítulos a parte. Com ele aprendi e gostar de pescar de anzol ( no campo e na beirada do igarapé), durante o inverno, e de socó, no verão.

Para pescar tinha toda uma liturgia: do primeiro ato, que era o “ se aprontar”, vinha embutido uma ironia, consistia o inverso do que representa a palavra, já que íamos vestir as roupas mais velhas e rasgadas que possuíamos; passando pela preparação do cofo, caniços, o púcaro com os bichos de tucum, anzóis (titular e sobressalentes),a lamparina, a careta; a confecção do facho de tiras de caçambas de palmeira de babaçu, amarradas com cipó de jabuti; até o encerramento, quando da chegada em casa, o banho, a ajuda na preparação dos peixes, o inesquecível cheiro destes na panela, com o borbulhante caldo de vinho de coco babaçu(era sagrado), e finalmente, a inaudita, inominável degustação desse manjar divino.

Sua forma de pescar, atitudes, métodos, viravam assunto recorrente nas rodas de conversas, ocasionando inúmeras brincadeiras, ironias, pilherias. Quando esta não era favorável, e ele retornava com um ou dois peixes no cofo, questionado se pegara, respondia : – Peguei sim, eu não levei. Dignos de nota, seus monólogos (ou seriam diálogos?), com os peixes, a abade do cigarro de palha, as iscas, levavam a gargalhadas desbragadas quem os ouvia, ou contado por algum expectador nos colóquios pós pescarias. – Ah, vocês não querem conhecer luz elétrica? Indagava aos hipotéticos bagres no pesqueiro. – Estão pensando que se não levar vocês, eu vou perder meu vinho? Dona Cota (mamãe), bota ele( o vinho de coco), no café. – O que tu quer, abade? Perquiria ao papel, na escuridão da noite, que não conseguia conter em seu bojo o fumo. – Eu vou trocar a isca, se o problema é esse, agora tem um bicho novinho pra vocês, barganhava. Até na zanga, quando os peixes rejeitavam a isca, ficava engraçado: – Tá bom, vocês não querem ir comigo, né? Depois não reclamem no verão, no meio dos poções, com tudo seco ao redor, e vocês gritando, me leva Juvêncio, me leva, aí eu não levo.

Detestava Roberto Carlos, Pelé e Sarney. No que se refere ao último, contava algumas histórias, que estão computadas no extenso rol daqueles casos, desacreditados por muita gente, sobre terem convivido na infância em São Bento. Ovo também não estava em seu cardápio. Possuía uma educação alimentar diferente de tudo que conheço: Nunca enchia a barriga, degustava uns pedaços da comida e dizia, tô satisfeito. Sua filosofia de vida era, comer pra viver, não viver pra comer .Passava o dia todo na roça sem levar almoço, só com água e o cigarro molheiro, esse não podia faltar.

Adorava assistir esporte na televisão, especialmente futebol, nunca declarou seu time do coração. Sempre achei que era flamenguista. Tinha uma profusão de afilhados, na sexta-feira santa, seguindo a tradição, acorriam muitos a passar esse dia com ele. Mamãe mesmo professando uma religião diferente, por respeito, preparava a torta de jabiraca, que os afilhados já levavam a matéria prima. Todos almoçávamos de acordo com a tradição católica, algo que não fosse carne. Era bonito observar o respeito com que o tratavam. Impressionava a lista de amigos e compadres que granjeou em Matinha, tanto nas classes mais abastadas, quanto junto aos mais humildes financeira e politicamente. Permitia a alguns amigos chamá-lo de Capijuba, já quando era uma pessoa jovem, ficava agastado.

Em Santa Vitória, suas amizades migraram para a descendência, e os filhos e netos dessas pessoas, amigas do coração, durante muitos anos, usavam a casa onde morávamos, como base para trocar de roupa, dormir, quando estudavam na sede do município. Anos antes do seu falecimento, meus filhos ainda pequenos, eram levados todo fim de tarde até a quitanda de Bochecha, ia tomar um gole de cachaça, que chamava de refresco, agradava aos meninos dando bombons. Eles adoravam, relembram carinhosamente essa época. Aprouve a Deus levá-lo no dia 20 de setembro de 2003. Antes ainda deixou dois legados: pediu que não o trouxéssemos para São Luís, desejava morrer em paz, ao lado da família; e que esquecêssemos o local onde seria enterrado. Preconizava que homenagens póstumas, não têm nenhum valor, quem quer que quisesse honrá-lo, que o fizesse quando ainda de olhos e mentes abertos.

Precisaria muitas páginas para contar as peripécias desse homem pobre e simples, probo além da conta, me ensinou e outorgou patrimônios como perspicácia, gratidão, honra, ética, amizades, princípios que procuro bem utilizar . Não deixou riqueza terrena, a fortuna maior, inolvidável, inquebrantável, foi seu exemplo de vida.

*João Carlos da Silva Costa Leite é cronista e escritor, natural de Matinha – MA. Bancário aposentado, casado, presbítero em disponibilidade da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB). Membro do Fórum em Defesa da Baixada Maranhense (FDBM). Membro fundador da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras (AMCAL), ocupando a cadeira de número 17, cuja patronesse é sua mãe, Maria Jose da Silva Costa Leite. Graduando em Filosofia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Uma resposta para “Artigo de João Carlos: Juvêncio Capijuba, meu pai”

  1. É complicado,
    Protestantismo e tradições populares.
    O protestantismo é ante cultura popular,
    É contra nossa heranças Lusas.
    Comigo não tem nada as ver com o protestantismo.
    Protestantismo,
    Acabou São João,
    Acabou São Pedro
    Acabou Santo Antônio.
    Boi não dança.
    Protestantismo, hipócrita
    Pornográfica Norte Americana.

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