GRATAS LEMBRANÇAS, POR MARCONDES SERRA

Professor Marcondes Serra
Minhas horas de solidão têm-me levado quase sempre às lembranças dos anos idos e as façanhas pueris predominam com maior frequência nestas minhas indeléveis horas nostálgicas. Não sei o porquê, pois até poucos dias, meus instantes de saudosismo transportavam-me às boas lembranças intercaladas entre a adolescência e a fase adulta, sem nenhum problema para explicá-las, porque eram compensatórias. A solidão, a falta dos bons momentos reais, as carências adultas, levavam-me àquelas vividas, onde somente as boas recordações afloravam e onde me vejo clara e obviamente como personagem central de tantas tramas. 

Aliás, nas boas lembranças sempre somos personagens centrais, quase nunca somos coadjuvantes. Impossível para quem conhece e admira não recorrer e amparar-se no grande Casimiro, saudoso da aurora da vida, da infância distante que nunca mais virá e que já se apresenta quase divagante, meio embaçada nos volteios da memória, teimosa em misturar-se em tempo e espaço noutras histórias de outros momentos. Sorrio aquiescente das palavras de Barrymore, ao tecer lamentos e reconhecer que os sonhos dissipam-se gradativamente dando lugar aos lamentos, aos pedidos de clemência de um Deus que não foi cultuado suficientemente para ser clamado agora, na senilidade pesada por tantos pecados e tão poucas preces, senão aquelas que se perderam no início das noites, de mãos postas em frente à lamparina colocada numa pequenina estante em forma de palmatória, presa à parede, que fumegava a fuligem embaçante para as telhas poucos metros acima.

Sem me perder no marasmo das explicações falhas, esforço-me para continuar lamuriante, pois estava justamente tentando ordenar as memórias estudantis tão dessemelhantes na convivência, quanto análogas no aspecto do aproveitamento, da relevância postural restrita ao fato de ter sido sempre um bom aluno – perseverança e orgulho em estar constantemente destacado entre os colegas, desde as primeiras aulas das séries iniciais do primário com as professoras particulares, das rodas de tabuada sob os estalidos da palmatória, ressentindo ilusoriamente hoje à algia do único bolo que me castigou, dado pela professora, por não ter sido algoz de um colega como deveria, porque fui complacente ao aplicar o golpe corretivo e punitivo naquele errante da aritmética rudimentar. 


Parece-nos grotesco repulsivo o método antigo do aprendizado, comparando-se com os modernos, mas naquela época aprendia-se tabuada e os rudimentos dos cálculos, base de todo o estudo da Matemática, e também os demais ensinamentos, hoje tão difíceis de serem constatados. A palmatória virou peça de museu e o respeito, a obediência à quase totalidade dos mestres foi-se também com o tempo. Poucos se impõem e valorizam o trabalho e a responsabilidade sob sua égide, não sentem o quão valioso é construir, preparar, moldar o cidadão em cada aluno disposto ao seu trabalho, preferindo ser sibarita de um salário ínfimo e um reconhecimento pífio.

Vou subindo a cronologia de minha história estudantil e constato-me sofrendo eventualmente situações de discriminação por diferentes motivos, dentre os quais se prepondera a condição financeira, sob meu ponto de vista o principal fator de discriminação neste país, também significou muito o menor tamanho entre os maiores, em maioria. Enquanto aluno pobre, até nas escolas públicas, vivi o drama da humilhação por utilizar material escolar de qualidade inferior, não possuir os livros novos, não carregar mochilas ou pastas vistosas, entretanto sentia-me igualado pelo fardamento, usado com galhardia e certo desdém; isto fortalecia a vontade de projeção e destaque, elogios, reconhecimento d’alguma forma e o mais fácil de conseguir era através das notas, da seleção para representar a turma e a escola, em maratonas estudantis, galgar posições invejáveis nos primeiros lugares, sempre! Era a minha vingança. 
Assim, na humildade de uma convivência carente, com meus tios, avó paterna, primos e minha irmã mais velha, fui traçando uma trajetória afeiçoada à educação, sendo bom aluno, orgulho dos meus pais, motivo de malévola inveja por parte de alguns parentes. Orgulhava-me de mim e dos bons professores do primário feito em São Luís, desde o terceiro ano, porque me separei cedo de meus genitores e irmãs, para estudar na capital, visto que a saúde debilitada por estranhas enfermidades apartou-me do seio familiar muito precocemente. Recordo-me grato e feliz dos anos no Grupo Escolar Gentil Braga. Depois, da quinta série no G.E Barbosa de Godois. 


Revejo Dona América, professora do terceiro ano, corcunda e competente; dona Noemi, professora do quarto ano, uma carcamana alta, bonita e severa com a disciplina e excelente nas explicações! Porém, Dona Risoleta eu reverencio como a mais marcante e melhor dentre as melhores, com todas as qualidades possíveis de se exigir a uma professora, mais que isto, uma verdadeira Mestra! Como misturo os sentimentos quando minucio as lembranças das aulas de Geografia das quintas-feiras, quando a disputa era nas localizações cartográficas, feitas em qualquer mapa temático, e tínhamos que apontar, sem titubear ou demorar-se procurando aquilo que havia sido proposto pela professora! Tínhamos que nos aproximar do mapa com o dedo indicador em riste, na direção do ponto arguido. Era sensacional! Fiquei com os mapas na memória, desde então.

Foi exatamente bem aí, no meu quinto ano primário, lá pelos idos anos de 1962, que descobri o gosto e o amor pela carreira de professor e comecei a vislumbrar a educação como um campo profissional fértil e benfazejo e reforcei esses conceitos ao conhecer Ramiro Azevedo, meu amado e idolatrado professor de Português, calmo em excesso, polido em demasia, competente o necessário para fazer de suas aulas um exercício de insaturado sabor em aprender; Alice Mancebo, professora de Geografia, que me encantou e desenvolveu qualidades surpreendentes como a capacidade de construir um álbum sobre a África, desmistificando a ideia de um continente próprio unicamente ao safári; Paula Frassinete, professora de História, cicerone de viagens insólitas pelas grandes civilizações, todos na Escola Técnica de São Luís, hoje IFMA. Esses mestres sobressaem-se com mais força em minhas lembranças e exemplos. Sempre, ao longo da vida profissional que abracei, vejo-me voltando e tendo-lhes nos mais diferentes contextos. 


Verdade que outros mestres estão presentes em mim até hoje, não importando a que áreas de conhecimento eles tenham desempenhado suas funções, ou mesmo que tenham trabalhado conteúdos sem amenidades, todos foram muito marcantes para mim. O jeito de cada um – suas diferenças em estratégias e métodos, conduta e cordialidade, singularidade na intensidade de compromissos e responsabilidades, suas generosidades, ficaram e deram sentido ao meu dia-a-dia nas escolas por onde estudei, levam-me a imitá-los consciente e efetivamente desde que entrei em sala de aula pela primeira vez, como professor Inglês, aqui no prédio do Grupo Escolar Estado e Santa Catarina, onde funcionava a Escola Normal e Ginasial “José Maria de Araujo”, mantida pela CNEC. Estava em plenas férias, tinha dezessete anos e muitos alunos já eram adultos, mas encontravam-se sem as aulas de Inglês e o Diretor, Padre Dante, um italiano “ranzinza”, excessivamente correto, não admitia que houvesse uma falha no cumprimento do currículo, desta forma, os alunos recebiam aulas de reposição das disciplinas que não tinham professores e eu, Boaventura Soares e Byron Santos Jacinto, uma grande figura joanina, cantor afinadíssimo daqueles feitos para ganhar “The Voice” e que faleceu muito precocemente; fazíamos essas reposições durante as férias. Foi meu grande começo. 

Depois lecionei Matemática para o Ensino Fundamental, no Colégio Nina Rodrigues, aproveitando a oportunidade dada aos universitários pelo professor e poeta Carlos Cunha. Tinha dezoito anos completos e cursava Administração, na escola de Administração Pública do Estado do Maranhão. Abracei apaixonadamente a carreira pedagógica, passei então à condição privilegiada de professor, exercendo as funções em diversas escolas e ministrando cursos de Administração de Material e Almoxarifado no SENAC e ministrando treinamentos de Voleibol no Ateneu Teixeira Mendes e alguns clubes como Sampaio, Maranhão, AABB, ACERT e Calhau Club.

Sempre referencio os meus grandes professores para os meus alunos e, como diretor, passo aos colegas muitos exemplos de atividades vividas como estudante, em grandes escolas, como o Grupo Escolar Gentil Braga, Grupo Escolar Barbosa de Godois, Escola Técnica e o Liceu Maranhense, com os ícones da docência escolar e decência profissional: América, Noeme Mampeti, Risoleta, Ramiro Azevedo, Alice Mancebo, Antônia Ribeiro, Paula Frassinete, Sued Tavares, Constantino e tantos outros. Aprendi e tento, na medida do possível, ampliar os limites das atividades educacionais que vão muito além dos muros e paredes de uma escola. Sei que precisam ser executadas em diversidade, através da prática desportiva, trabalhos artísticos, ampliando o universo cultural ao máximo e propiciando aos alunos um ambiente solícito, prazeroso, firmando com eles laços de respeito e amizade sincera, sem esquecer de preparar o coração para a despedida, pois eles passam e nós professores ficamos, prosseguimos, renovando e ampliando a cada ano o círculo de amizades, através do prazer de ensinar.
Seguir os bons exemplos, principalmente em educação, é construir a certeza de cumprir dignamente com o compromisso social de formar opiniões, preparar cidadãos para a vida, dando-lhes condições de crescimento e melhorias.


Folha de SJB

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