Artigo de João Carlos Costa Leite: Mato-Piba, trágico empreendimento

Um poema do intelectual matinhense Michalany Amaral tocou fundo em minha alma.  Impactado, resolvi escrever sobre ele. Chama- se MATO- PIBA, primoroso registro elaborado por esse matinhense apaixonado pelo assunto, de sensibilidade evidente e herança erudita inquestionável. Geração posterior a minha, Michá, como carinhosamente o chamamos, sempre mostrou aptidão a literatura e as artes.

Escritores matinhenses João Carlos e Michalany Amaral

Ávido por bons livros e ótimas músicas, solidificou, acumulou conhecimentos, que se expandiram quando   enveredou á seara da militância política sindical.

Atualmente professor da rede municipal de ensino da capital, possui formação acadêmica em Pedagogia da Religião, Licenciatura em Docência, Psicanalise e está cursando Licenciatura em Filosofia pela Universidade Federal do Maranhão -UFMA–.

MATOPIBA é um acrônimo que representa a principal fronteira agrícola em expansão no Brasil.

O verbete é a união das primeiras letras dos Estados que o formam: Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

MATO- PIBA

Sou eu além fronteiras

Com fome e sede

Do cerrado, das matas virgens

Das águas doces dos rios.

 

Tocantins, São Francisco, Parnaíba, Araguaia

“Toquem suas águas,

 toquem suas magoas”

Chorem e as desaguem.

 

Troco mato por monocultura

Agrido o meio

Destruo o chão

Troco tudo por milho, soja e algodão.

 

Flora e fauna

Tudo em degradação

Clamam por salvação

Gritando ao mundo por seu torrão.

 

Mato a flora

Mato a fauna

Mato o solo

Mato as águas

 

Mato os quilombolas

Os povos originários

O pequeno agricultor

Mato sonhos e esperanças

Esse sou eu, MATOPIBA.

Autor: Michel Larama (Michalany Amaral)

Íntimo com formas, estruturas, métodos, versos, estrofes, desde a infância, nosso comedor de manga faz bonito neste poema livre. Dedicando amplo espaço a figuras de linguagem.

Considerada a principal fronteira agrícola da atualidade no Brasil, Matopiba apresenta aspectos de crescimento em diversos fundamentos econômicos, desprezando outros que embora importantíssimos, são relegados ao esquecimento, desprezo, ostracismo.

Com uma extensão territorial de aproximadamente 73 milhões de hectares, possuindo 337 municípios, abrangido o Estado inteiro do Tocantins, além de partes do Maranhão, Piauí e Bahia, localiza-se em estratégico setor que engloba duas importantes regiões, Norte e Nordeste, além da proximidade ao Centro Oeste.

Com a sensibilidade de quem ver o mundo, a vida, de outro modo, realça em sua ode, esse olhar, denunciando a situação.

Tentarei missão quase impossível: analisar singularidades ocorridas no belo poema exposto.

Certamente não terei pleno êxito, devido sua singeleza e magnitude.

No entanto, estarei contemplado, satisfeito, por desfrutar ditoso e hermenêutico momento.

MATO – PIBA, é o título.

Não por acaso, com um sinal hífen dividindo as iniciais Maranhão, Tocantins de Piauí e Bahia.

Esse hiato, separação, encena, logo na epigrafe o conteúdo temático. MATOPIBA, lindo acróstico, designa sua função precípua, matar.

Contradição tão evidente quanto a segunda parte, que remetendo a PIB, (Produto Interno Bruto), soma de todos os bens e serviços finais produzidos numa região, revela pobreza, miséria, inanição.

Assombrosa disruptura.

Cruelmente o paradigma neoliberal do crescimento trazendo progresso é exposto: crescimento, progresso, desenvolvimento, prosperidade, pra quem?

“Sou além fronteiras”, a primeira estrofe indica   resumo da representação geográfica e humana do negócio.

Sim, negócio.

Matopiba, é um alto, rentoso negócio, gerido, organizado pelo agro e empresários do setor, com um único, explicito objetivo, o lucro, acima de tudo e de todos.  São recursos, fundos, capitais, das mais diversas origens, nacionalidades, especificações.

Citar na segunda estanca os rios Tocantins, São Francisco, Parnaíba e Araguaia, denota a genialidade do autor em circunscrever estes cursos de água doce aos Estados formadores.

Referenciais aquáticos, impregnados na cultura popular das Unidades participes, sendo quase sinônimos dos gentílicos.

“Toquem suas águas, toquem suas mágoas”, o trecho da esplendida canção do compositor tocantinense Genésio Tocantins, reverbera o valor histórico, hídrico, geográfico, político, de territórios ocupados.

Águas e mágoas não só rimam poeticamente, também na dor, horror, de um cotidiano cada vez mais duro, inclemente, caustico, caótico pros moradores, retirando a riqueza de muitos e despejando nas contas de poucos, que sequer residem ali.

Agressão, destruição, nosso bardo explora, tange sua verve poética, abrilhantando-nos com palavras fortes, verdadeiras, concomitantemente, desnudando os acontecimentos.

Fauna e flora degradadas, sementes nativas trocadas por hibridas, meio ambiente jazendo, completa devastação.

Mato, torrão natal, povos originários, quilombolas, pequenos agricultores, imploram por salvação.

Os sonhos, as esperanças de um digno, promissor futuro, estão sendo estraçalhados por uma aberração, um monstro chamado MATOPIBA

Através do poema MATO -PIBA, Micharlany enleva, encanta, deslumbra, maravilha.

E denuncia, retrata, par e passo, o crime cometido pelos insaciáveis gananciosos de sempre.

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