João Carlos

Artigo de João Carlos Costa Leite: Amigos, para sempre, amigos

O amigo ama em todos os momentos, é um irmão na adversidade” Provérbios 17,17. A vida me permitiu poucos amigos, no entanto, os que possuo, que abro a boca, e chamo por esse nome, são de importância inestimável, vital, fabulosa.

João Carlos
João Carlos

Apareceram no percurso da existência; uns conheço desde que nasci, brincamos, brigamos, fizemos estripulias juntos; outros na adolescência, juventude, igreja, trabalhos, militância sindical/política, e, serodiamente, na universidade. Histórias, coisas do arco da velha contaria deles. Remetendo a sentimentos, saudades, afagos, desentendimentos, brigas, debates, embates face a face, que, em vez de enfraquecer, fortaleceram as relações.

Não citarei nomes. Para não constranger? Talvez. zangar, comprometer? É possível. Mas, não.

A verdade verdadeira:   suspense, legar aos    que vivenciaram, identificar-se, descobrir-se no que está escrito, lugar de fala, protagonismo, sua importância neste universo, meu coração. Peripécias, na infância, adolescência, permanecem impagáveis mais de meio século depois. As adjacências das casas que com a de vovó Lola, formavam meu mundo; amigas, amigos, surgiam, brotavam espontaneamente, igual fogo-fátuo, croacangas, aparelhos.  

Entre banhos  nas biqueiras,  conversas nas calçadas em noites de  luar, jogo de pião, bola dente de leite, bolinha de vidro, china;  incursões  nos quintais vizinhos,  oficina de Nonato, “ ajudando” a movimentar a  manivela do velho caminhão de Juca Amaral;  preto fugido,  secando poça, furando os pés com espinhos de tucum nos roçados; armando garapucas, atirando  de  baladeira,  empinando papagaio;  mergulhando  na água comprida,  igarapé de Gongo, poço velho; quebrando tucum pra vender, tirando bicho pra pescar, choqueando de   lata na baixa de Grijosto; lendo revistinhas em quadrinhos, dentre tantas atividades, apareciam, alicerçavam-se, desapareciam, numa apuração/depuração  constante.

Destarte, os bons, verdadeiros, subsistiram perenes, imutáveis.  Reencontro-os, da distante infância, continuam os mesmos.  Sem rever pessoalmente, indicam motivação igual à que nos unia no princípio. A linha tempo evoluiu, os passos da minha formação educacional, religiosa, trabalhista, sindical, aumentou-os, formando   núcleos   importantes.

Existem gradações, uns mais chegados, parecendo irmãos nascidos em ventres diferentes, outros nem tanto Obviamente, os “irmãos”, comungam mais semelhanças e dissensões, com direito a inserções em temas íntimos.  Apareciam, consolidavam-se, à medida do avanço   da idade.  Roda mundo, roda-gigante, rodamoinho, roda pião. O tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração”  

A estrofe do belíssimo poema musicado, “Roda Viva” de Chico Buarque, materializa-se em minha história, como saborosa comida, comparada a jandiá no vinho de coco, galinha caipira, pato, piaba frita, traíra, seca, assada, escabeche, Maria Isabel, ou muitas outras, tão apreciadas.

Quando casamos, eu e Antônia, resolvemos, mesmo sendo evangélicos, escolher    madrinhas e padrinhos dos nossos rebentos.

Essa tradição, é ilustrativa da temática em tela. Existe um ditado emblemático na Baixada: “ninguém leva inimigo pra compadre”.

Nesse aspecto, a sedimentação, continuidade, carinho, transformam simples ato de padrinho de casamento e filhos, em peça de diamante, impossível de quebrar. Enveredaria, dando sinais identificativos, não necessariamente numa ordem cronológica, terminativa, em tamanho, dimensão, raça, preferencias gastronômicas, ideológicas, futebolísticas, religiosas.

O cearense politizado, habilidoso; o militante que compartilhei moradia; a ativista  bancaria, cujo nome é uma prece;  a parente não consanguínea, alcunhada por nome que amamos; as “filhas do coração”, curiosamente com as iniciais idênticas a filha biológica;   presbíteros docentes/regentes, derrubando a barreira clerical,  denominados  companheiros, no sentido conciso do termo: “ comer o pão junto”;    o doutor em filosofia, que começou comigo na  UFMA; o professor doutor originário  da  enseada perdida  no município baixadeiro;  o estoico   recentemente agregado; o blogueiro famoso;  o causídico Dj; o político  que me vendia  carne na adolescência;  adquiridos por redes sociais durante e após a pandemia, em eventos acadêmicos, camaradas da militança.

São sóbrios, taciturnos, brincalhões, piadistas, quiméricos, realistas. Falo em  amiúde frequência com uns, esporadicamente, com outros. Alguns, respondem rapidamente a mensagens, outros demoram dias. Cutucões em status, postagens sobre temas diversos no privado, intensa atividade virtual também se integra ao processo.    

Juntam-se aos “chegados” nos movimentos sociais, sindicais, políticos, que opero desde sempre; os da infância, a alguns da igreja. Via de regra, são os que malgrado um outro/outra, por razões diversas, foram excluídos. Formam vínculos, amor Philia, do qual me orgulho, e que como o próprio termo grego aponta, estão acima de mera amizade.

Parece contraditório, um anarquista no espectro ideológico utópico, cercar-se de amigos verdadeiros num escopo tão abrangente.  Deveras, embora poucos   numericamente, abundam em outras categorias, fundamentos. Jovens sonhadores, velhos militantes, engajados politicamente, despolitizados; trabalhadores rurais, urbanos; pobres que enriqueceram, pobres por condição, pobres que se acham ricos.

Uns bebem socialmente, outros desbragadamente, alguns abstêmios; religiosos, sem religião, ateus, agnósticos, desigrejados. Doutores, pós doutores, escritores, poetas, compositores, sem formação acadêmica, analfabetos, semialfabetizados. Capitalistas, neocapitalistas, pseudocapitalistas, socialistas, pseudo comunistas, comunistas, anarquistas, anarcocapitalistas, conservadores, progressistas, nem-nem. O ecletismo é regra básica e preponderante

A literatura, mundana ou sagrada, cantos, versos, experenciam casos fantásticos concernentes ao tema.  “A Odisseia”, atribuída ao poeta grego Homero, que conta o retorno do guerreiro Ulisses (Odisseu), mostra o cão Argos, o único a reconhece-lo vinte anos após, mesmo estando disfarçado.

Na Bíblia, a relação entre rei Davi e seu cunhado Jonatas era marcante e leal, posto como amor igual a sua própria alma, ou maior que o amor de mulher; amizades singulares, verdadeiras: Abraão e Ló; Rute e Noemi; Eliseu e Elias. O Novo Testamento, exprime-o    mais fortemente, é o amor incondicional. que está além de uma simples amizade, representa liame profundo entre indivíduos.

Maria e Izabel; Paulo, Timoteo e Tito; sinalizam parcela desse princípio. Jesus, o Emanoel – Deus conosco-, o Messias, apresenta faceta diferente, inédita, sacrificial, vicária, humanamente incapaz de exteriorizar, o amor Ágape, o mais perfeito, doado por Ser sublime, o Deus Filho, da Trindade Santa, que são um, segundo nossa crença, junto com Deus Pai, Deus Espirito Santo.

Entre os autores   tupiniquins, proliferam bons exemplos de amigos.  Compositores, cantores, nos mais diversos ritmos, sempre realçaram, como critério em suas obras.   Na filosofia, o conceito de amizade, perpassa os principais representantes desta ciência, cada um valorizando seu modo e forma sentir.  O significado do termo, o demostra cabalmente: Filo (Amor) Sofia(saber). Uma amizade exacerbada, paradoxal, incompreensível, disparatada. Lembrando aquele professor do curso,” tesão pelo saber”

Há um quê filosófico, uma analogia, nas minhas amizades, um entendimento só possível através da mãe de todas as ciências.  Isso se verifica em fundamentos, multiplicidades, vistas em suas divisões.  Ficaria horas falando sobre características atinentes aos amigos e a filosofia, no entanto, receio tornar-me enfadonho.

Por isso, entre escolas, ginásios, academias; estoicismo, ceticismo, niilismo, cinismo; métodos, argumentação/discussão, raciocínio/lógica, reflexão, teses, antíteses, sínteses, etc. Fico no Jardim de Epicuro e sua expressão máxima, a ataraxia. O estado filosófico da tranquilidade da alma, a ausência da perturbação, medo, ansiedade. Busca da felicidade.

Suas simbologias, princípios, objetivos, representam, tipificam, tudo aquilo que necessito, almejo, preciso, anelo.

2 respostas para “Artigo de João Carlos Costa Leite: Amigos, para sempre, amigos”

  1. Bom dia Companheiros,

    muitas dessas palavras eu nunca saberei o significado e não será usual no meu vocabulário, mas entendi que os amigos nos deixam mais seguros nesse mundo do Direito a incerteza.

    Vivi no tempo do João Carlos, um amigo daqueles que abre o olho da gente pra não deixar cair no buraco.

  2. Quem me dera eu tivesse a sabedoria, o dom da escrita e a sensibilidade para fazer um texto tão representativo e belo como esse. Garanto que o faria e, certamente, João Carlos faria parte pois ele é um grande ser humano que o mundo me presenteou como amigo. Parabéns irmão, pelo lindo texto.

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