Artigo de João Carlos: Trajetória de vida memorial II – Religião

Trajetória de vida memorial II – Religião – “É só a Fé que justifica, mas a Fé que justifica não está só” J. Calvino

Minha vida foi moldada, plasmada, definida, por inúmeras concepções. A pessoa que hoje fala, escreve, chora, ri, briga, abraça, beija, debate, grita, cala, adoece, caminha, morre aos pouco, etc, etc… é a colagem multiforme de conceitos, conhecimentos, aspectos, erros/ acertos, inerentes a uma trajetória única e exclusiva a todos da raça, denominada humana. Acredito que o Esporte, a Religião e a Política, não necessariamente nessa ordem, tiveram a função precípua de esculpir, dentre tantas outras experiencias/conceitos/ categorias, a personalidade deste ser que no tempo e espaço está aqui hoje, agora.

João Carlos

Com base nessa visão, resolvi escrever três artigos, que qualifiquei de capítulos memoriais, dissertando sobre cada um desses temas. Na oportunidade estarei também trazendo à tona concomitantemente, lembranças, memórias, recortes da minha existência.

RELIGIÃO

Pertenço a terceira geração por parte de mãe, de uma família protestante (não aprecio muito o termo evangélico, embora use), vovô Sebastião Justino e vovó Lola, converteram-se à Igreja Presbiteriana Independente do Brasil – IPIB-, creio que no ano 15 do século passado.
Sou o quarto filho da união entre Maria José da Silva Costa Leite, mais conhecida por Maria de Lola, criada com base em aspectos religiosos da “Igrejinha dos Milagres”, como era chamada a IPIB ,devido ao seu vertiginoso crescimento após ser desvinculada da IPB em 1903, sob a batuta do reverendo Eduardo Carlos Pereira, um xenófobo declarado e especialista em língua portuguesa; e de Juvêncio Costa Leite, um sanbentuese de formação católica romana, extremamente cético e crítico com quaisquer atitudes tanto de padres quanto de pastores.

O embate protestantes X católicos, ocorreu no seio da nossa família inúmeras vezes. Evidentemente que de modo velado, pois a meu juízo, papai não tinha coragem de interferir mais diretamente com mamãe. Um reflexo dessa disputa é notado quanto ao batismo dos filhos, os dois primeiros, Luís Augusto e Juvêncinho (falecido aos 16 anos), tiveram padrinhos, nos moldes da Igreja Católica; Sebastião (Palá), eu e Ana Elizabete (Bete), não fomos batizados na infância (procedimento efetuado nas igrejas protestantes tradicionais), ocorrendo só na fase adulta, já na IPIB.

Comecei a me entender como gente a partir da ida do restante da família para a casa de vovó Lola. Praticamente já morava lá, por iniciativa de Tchem, (Ana Rita), desde os quatro anos de idade, indo só dormir na residência antiga de papai, que ficava onde hoje é o Bairro Novo.
Vivíamos a metade pro final da década de 60 do século passado, e em Matinha só havia algumas famílias ditas protestantes, no máximo dez. Os irmãos assembleianos chegaram, salvo engano, após 1975. Os Batistas bem depois.

Éramos herdeiros da pregação do evangelho que se iniciara pela povoação Maravilha, atualmente pertencente ao município de São João Batista, capilarizando-se por toda a região, logicamente nas áreas lacustres, inundadas, de campo, pois as estradas de terra ainda não davam pleno acesso. Atualmente a “Igrejinha dos Milagres”, como foi chamada esta denominação nascida em São Paulo a 31 de julho de 1903, está presente como igreja organizada em Matinha, Viana, São João Batista, Penalva, e na localidade Sacaitaua – Viana. possui ainda congregações no Alegre, Maravilha e Beirada, em território joanino; povoado Meia- Légua e bairro Santa Maria dos Meireles, na cidade das mangas; bairro Vinagre, Viana; bem como nas cidades de Cajari, Monção e Pinheiro.

Passei a infância indo aos domingos para a escola dominical na casa do presbítero José Conceição Amaral, que a época morava na rua Cel. Antônio Augusto, esquina com a rua Agostinho Oliveira. O famoso cartório velho. Um tempo profícuo, eivado de excelentes lembranças e aprendizados, que devido sua profusão, não cabem neste texto. As canções que aprendíamos, as pregações, as brincadeiras depois dos cultos, (cabra cega, cair no poço, casamento oculto, dentre outras), sob o luar e sobre as areias branquinhas, em frente à casa de seu Nilo/ dona Tonica, e seu Carpina/ dona Betoca, são indescritíveis, inesquecíveis, e emocionam minha alma. Reminiscências de um tempo de paz, benção, felicidade, alegria.

Guardo indelevelmente marcada, a exibição de uma fita cinematográfica, trazida de São Luís, pelo senhor Jesus Sombra – dono do então prestigiado foto Sombra -, que era Presbítero da 1ª IPIB, mostrando a chegada do homem à lua, na sala com piso de paparaubas, da já famosa casa do presbítero Jose Conceição e nossa irmã Zezé Amaral, onde todos os eventos da congregação presbiterial de Matinha ocorriam Aquela imagem tosca e fosca, vista aos nove anos de idade, do astronauta norte americano Neil Armstrong, dando passos cambaleantes na superfície lunar, nunca mais me saiu da mente, e foi decisiva pra fissuração que tenho até hoje, em filmes/ assuntos/temáticas relativas ao espaço, ao infinito.

Na metade da década de 70, a congregação presbiterial da IPIB Matinha, que já fora igreja organizada, mas perdera essa condição, adquiri um terreno na rua João Amaral da Silva, em frente ao chamado Campo do Brasil, que depois foi loteado. Muito próximo do comércio do irmão Melchsidech Penha Braga e sua esposa Lucimar Pinheiro Braga. No dia 14 de março do ano de 1981, Matinha retornou à condição de igreja, com um templo novo, tornando realidade um anseio acalentado por todos a muito tempo. Não pude participar da festa, estava em São Luís, tentando sobreviver. E por ser época de inverno, mas principalmente por questões financeiras, não estava na inauguração.

Devemos bastante a construção desse prédio a união dos irmãos. Faço aqui menção a uma pessoa, que pertencera a Primeira Igreja de São Luís, chamava-se Patrício Câmara, odontólogo renomado na capital, esse irmão foi incansável em ajudar, principalmente financeiramente, a obra. A década de 80 mostrou-se propicia aos jovens da IPIB na Baixada, a Coonorte, antiga Fenorte, órgão do Presbitério do Norte (Pnor), responsável pelas ações junto a moços da Igreja, resolveu interiorizar seus trabalhos  O desembocadouro natural foi a Baixada Maranhense, por diversos motivos: proximidade com a capital, que naquele tempo possuía três igrejas registradas regularmente, a Primeira IPI, no centro; a Segunda no Bairro de Fatima; e a terceira no Anjo da Guarda. O outro motivo seria um apelo, digamos de sangue. De modo geral as famílias que faziam e ainda hoje fazem parte das IPIs da capital, são maciçamente, como aliás 70% dos ludovicenses, oriundos dessa belíssima micro região, Baixada Maranhense.

Sempre houve um intenso tráfego entre a Baixada e as igrejas de São Luís. Criei-me numa casa e numa cidade onde os nomes dos pastores eram reverenciados, estimados e respeitados. Mamãe contava que vovó Lola tinha um quarto onde eram postos os materiais do reverendo Adiel (Adiel Tito de Figueiredo), ali estavam a sua rede, lençol, toalha, sabonete, além do tamanco (chamató), com salto, para enfrentar as ruas lamacentas no período chuvoso.
Tudo guardado com carinho, desvelo e amor pelos donos da casa. Quando vinha em visita aos irmãos, estavam limpos, cheirosos e prontos para usufruto, sem contar a melhor galinha, a melhor manga do quintal. O reverendo Almir (Almir André dos Santos, o “Almir velho”), que casou-se com uma moça do povoado Alegre, São João Batista, foi presidente de sessão eleitoral na cidade durante algumas eleições. Estas possuíam fiscais dos partidos envolvidos, onde a disputa é renhida. Quem conhece Matinha sabe bem do que falo. A sessão que o reverendo Almir presidia, não tinha necessidade de fiscais. A confiança na sua honradez e probidade o permitiam. Os grupos políticos sabiam disso.

Inesquecíveis as palavras de carinho, respeito, gratidão, reverencia, louvor, mesuras, que ouvia constantemente de vovó Lola, mamãe, Tchem, seu Melques, dona Noêmia, dentre outros, a respeito desses dois pastores. Só cheguei a conhecê-los pessoalmente bem mais tarde, (especialmente o reverendo Almir, por morar em Belém do Pará) mas ao encontrá-los era como se tivéssemos uma convivência próxima desde sempre. Convém registrar que havia reciprocidade da parte deles, em relação ao povo de Matinha. Ainda pastorearam em nossas plagas, o reverendo Raimundo Estevão Amaral, com quem tive o privilégio de fazer profissão de fé e batismo, (pois como falei anteriormente, não fui batizado na infância), durante mais de vinte anos. Matinhense autêntico, como se diz, da gema, este filósofo e humanista por formação, possuía pregação esculpida nos padrões de cultura e saber, além de uma impetração da benção apostólica e de um amém tríplice inigualáveis. Os reverendos Raimundo Nonato Damasceno e Antonio Gonçalves, fizeram parte da história da IPI de Matinha e da minha, até aquele momento.

A década de 90 foi abundante em novidades, avanços e bençãos. Eu que fora morar em Arari no ano de 1988, trabalhar na COMABA, voltava a Matinha, casado, (encontrei minha cara metade na terra das melancias, casamo-nos em 89), e funcionário do BEM, para prestar serviços na agência desse banco recém inaugurada. Durante a estada em Arari, quando ainda namorava com Antonia, tive a oportunidade de pela primeira vez, e eu já tinha 27 anos, assistir uma missa inteira. Homilia comandada pelo saudoso padre Clodomir Brandt e Silva. Eu fora criado tão hermeticamente fechado dentro dos padrões protestantes, que aquele episódio, a palavra do padre Brandt, a exegese do texto lido, marcaram-me profundamente, quebrando arquétipos e preconceitos acumulados durante toda a vida. Frequentava em Arari, nos fins de semana que não viajávamos a Matinha, a igreja Batista da cidade, que era comandada pelo querido pastor Raimundo Duarte, de saudosa memória.

O cenário na Baixada era então: IPIB Matinha, e IPIB Viana, que alcançara esse status em 1991. O Pnor, concilio que agrega as IPIs do Maranhão, Piauí e Pará, designou dois pastores para efetuarem os chamados Atos Pastorais nestas. Na primeira, o reverendo Heitor da Silva Glória, e o reverendo Almir André Everton, (o Almir novo) na segunda. Atos Pastorais, são atividades praticadas em igrejas organizadas que ainda não possuem um pastor efetivo. Este é comissionado, designado, junto ao Presbitério para atender, normalmente uma vez por mês, quase sempre num fim de semana, a comunidade. Nesse período faz visitas, reúne o conselho, dirige a escola dominical, coloca-se as par dos problemas, serve a santa ceia aos doentes e idosos impedidos de irem aos trabalhos. Encerra seu périplo com um culto, geralmente aos domingos. Estas atividades são extenuantes e corridas, já que o pastor deve retornar a sua cidade, na noite do domingo, ou no mais tardar, na madrugada da segunda feira.

Obviamente que as igrejas, representadas pelos seus conselhos, em que pese o carinho e a dedicação que víamos desses obreiros, eram cobradas pela membresia, em função do fervor do crescimento, e do potencial, solicitando visitas mais amiúdes, ou até mesmo alguém que residisse no campo. Eu e Zwingle Pinheiro Braga, havíamos sido eleitos presbíteros, (ele inclusive, ainda sendo solteiro, coisa deveras incomum, rara, na IPIB naqueles tempos). Nós, que vínhamos de uma experiencia na Coonorte, agora havíamos ascendido a instância máxima da igreja, seu Conselho.  Na Igreja Presbiteriana Independente, os presbíteros, que formam a administração da igreja, (o Conselho), junto com o ministro, bem como os diáconos, são eleitos pela membresia, por voto direto e secreto, para o mandato de três anos,

A igreja de Matinha possuía um ponto de pregação na casa da irmã Vicência Morais Mendonça, que através do presbítero dr. José Conceição Amaral, conhecera a palavra e o amor pela obra.
Mulher de personalidade forte, oração, e serva fiel de Deus, dona Vicência incorporou um ativismo que já se fazia presente desde sua passagem pela igreja católica, a uma vontade indômita em fazer evangelismo. Usando sua residência como base, passou a incansavelmente propagar a palavra de Deus no bairro de Santa Maria dos Meireles. Junto com o irmão Onésimo Mendonça, e inúmeros outros irmãos através dela convertidos, não mediram esforços, até conseguirem a construção da congregação. O ano de 1992 foi muito movimentado. Autorizados pelo Conselho e referendados pelos irmãos, Zwingle e eu partimos na tentativa de conseguir, junto ao Pnor, aquele que era o maior sonho dentre 10 a cada 10 membros da IPI Matinha: a aquisição de um pastor que pudéssemos chamar de nosso.

Sabíamos de antemão, das enormes dificuldades que teríamos para colocá-lo em prática. Elencarei três, provavelmente existiam outros, mais estes eram os prementes: indisponibilidade de obreiros no Presbitério, os pastores em atividade, todos estavam comprometidos com suas respectivas igrejas; a região era muito pobre na obtenção de bens e serviços para alguém que viesse de outras localidades, já acostumados com essas benesses; e principalmente, a questão financeira. Como tesoureiro da igreja, eu sabia exatamente até onde dava o nosso cobertor.
Partimos para a luta, e esta preconizava várias frentes. Iniciamos conversas com o Conselho da IPI Viana, no sentido de repartirmos o salário(côngrua) do obreiro que viria; concomitantemente, fomos a cada membro, visitante já contumaz, irmãos que momentaneamente estavam afastados, mas que sabíamos do amor a igreja e que comungavam da nossa utopia. Bem como intensificamos as tratativas junto ao Pnor.

Tivemos a providencial ajuda de um jovem reverendo, que chegara ao Maranhão para pastorear a primeira IPI, Valdir Mariano de Sousa. Oriundo de São Paulo, o reverendo Valdir, possuidor de muitos contatos em presbitérios Brasil afora, não mediu esforços em nos ajudar.
Prosseguíamos celeremente naquilo que havíamos determinado como metas para que o nosso sonho se transformasse em realidade. A euforia e a esperança tomavam mais e mais espaço em nossas almas. Com a IPI Viana, foram muitas reuniões, algumas em Matinha, outras na Princesa dos Lagos, ocorrendo notáveis avanços. Internamente, já catalogados os membros, e pessoas que embora não fossem do rol, sentiam-se sensibilizadas em ajudar financeiramente, pactuamos o seguinte: eles ou elas, estipulariam um valor, não necessariamente dízimos (a décima parte do que ganhamos, como fala a Bíblia) ,mas aquilo que o seu coração, de forma livre e espontânea, achasse justo, como doação. No dia do mês que achasse mais compatível.
Emociona relembrar. Não citarei nomes, pois incorreria no risco de esquecer alguns, de irmãs e irmãos, que ao receber aposentadorias, ou proventos no banco, ali mesmo deixavam comigo suas contribuições? Ou outras que já sob o peso da idade, lentamente (não tem como não chorar), ladeados por um neto, ou neta, iam até minha casa, dispendendo imenso esforço físico, mas alegremente entregar seus valores?

Zwingle mantém guardada´ até hoje, a planilha que preparamos, para anotar as contribuições. Estas iam de r$ 1,00, 1,50, 5,00, para valores maiores, daqueles que podiam e ganhavam melhor.
Em dezembro de 1992, na reunião ordinária do Presbitério do Norte, cujo presidente aprouvera a Deus ser o reverendo Valdir Mariano, após muitas orações, dezenas de telefonemas e articulações, realizou-se o que ardentemente desejávamos: o costarriquenho, reverendo Ricardo Vargas Mora, aceitara o desafio, e seria o pastor das duas IPIs baixadeiras. Estava enfim vencida a batalha, quebrara-se o paradigma. Todos nós acreditávamos piamente que uma nova era se inauguraria, a história da IPIB na micro região da Baixada Maranhense, jamais seria a mesma. E isto realmente aconteceu, novos horizontes desnudaram-se para a obra do Senhor.
Ricardo Vargas assumiu em fevereiro de 1993, após um período de férias que a igreja dá aos seus ministros, quase sempre no mês de janeiro.

Para efeito de registro histórico, no ano de 1993, o Brasil vivia o governo de Itamar Franco; no Maranhão estávamos sob a égide de Edson Lobão. As cidades de Matinha e Viana iniciavam os mandatos de Raimundo Silva Costa, (Pixuta), já o seu terceiro, e Daniel Gomes, o Danielzinho, respectivamente. Após Ricardo Vargas, tivemos os reverendos Evandro José Brito Cunha, sucedido pelo reverendo Samuel do Prado, seguido pelo missionário Jackson Lima, substituído pelo Reverendo Douglas Santos, e o casal de pastores Gildo Francisco Lopes e Marly de Góis Menino Lopes. Foram mais ou menos 15 anos ininterruptos de obreiros residindo efetivamente na região. Faço então um recorte, quando chego aos nomes do reverendo Gildo e sua esposa reverenda Marly, pois acredito que neles e após suas saídas, já vivenciávamos um cenário diferente, algumas metas já haviam sido alcançadas, novas perspectivas e projeções apareciam.
Passarei agora a listar, de modo aleatório, não cronológico, pois a memória não conseguiria arrumar, período por período, os fatos, as atividades que ocorreram durante esse tempo. Tentarei reunir o máximo possível de informações, no registro de melhor veracidade desse imenso legado.

A primeira mudança foi mais assiduidade dos trabalhos. Com um ministro presente, mesmo tendo seu tempo dividido entre as duas “metrópoles”, pôde-se elaborar e cumprir horários para cultos de oração durante a semana e no domingo à noite, bem como visitações, escolas dominicais, reuniões, etc… Efetivou-se a criação dos grupos e ministérios, os mais variados, tudo na perspectiva de melhorias e avanços. Efetuávamos reuniões, traçava-se estratégias, movimentavam-se os irmãos, tudo regado a intensa vontade de dá certo.
Passamos a trabalhar conjuntamente. Eventos como o 31 de julho, data comemorativa ao aniversário de fundação da IPIB, agora realizavam-se a cada ano em uma igreja ou congregação diferente. Era lindo de se ver as caravanas chegando, a confraternização entre os irmãos, as apresentações de cada grupo de louvor. Momentos de amizade e carinho recíprocos. Famílias e grupos eram recebidos nas casas dos irmãos, onde tomavam banhos, lanchavam, jantavam, numa festa de carinho e hospitalidade. Todos, independentemente do maior ou menor recurso financeiro, davam o seu melhor para honrar esses momentos de comunhão, louvor e gratidão a Deus.

Havia ainda os trabalhos de evangelização e entrega de folhetos, em bairros previamente escolhidos. Nos reuníamos em grupos de cinco pessoas, liderados por alguém da cidade, visitávamos os moradores, casa por casa, levando alegremente a palavra de Deus e convidando para os trabalhos a noite.  Ao final do animado culto, recolhíamos a tradicional coleta, cantávamos o hino oficial da nossa igreja, “Um pendão Real”, e saíamos de retorno aos nossos lares, revigorados e cheios da unção do Espírito Santo, já ansiando pelo próximo evento.
Na época do carnaval, já sabíamos, os retiros espirituais estavam garantidos. Fizemos diversas vezes no CAIC, uma escola em Viana, ou não podendo, em outros locais. Um intenso e constante intercambio, que permitiu, não obstante, os atritos, que novas lideranças fossem nascendo, entre os adolescentes, jovens e adultos

Só para exemplificar, na área musical, onde existia uma carência muito grande, inúmeros cantores e tocadores de diversos instrumentos, foram descobertos e estão por aí hoje, mostrando seus talentos, alguns nas igrejas, outros infelizmente as deixaram.
Fazíamos encontro de casal, de jovens, de adultos, de adolescentes. Os ministérios de música, oração, dentre outros, eram comumente estimulados a realizarem congressos, eventos, trazendo ministradores de outras localidades. Estivemos duas vezes a Natal no Rio Grande do Norte, em caravana com as IPIs do Pnor. Fomos ainda visitados duas vezes, por irmãos norte americanos do Estado de Ohio, que aproveitaram e nos ajudaram na construção das congregações de Pinheiro e do bairro de Santa Maria, tanto financeiramente quanto nos trabalhos braçais.

A partir da segunda metade da primeira década do século XXI, ocorreu meu afastamento dos movimentos nas IPIs da Baixada. Já não era mais da tesouraria e nem tampouco do Conselho de Matinha, meu companheiro sonhador Zwingle, também já não morava efetivamente na cidade. Desfizera-se a dupla dinâmica que tia Terezinha chamava de Cosme e Damião, devido só andarmos juntos? Nem tanto. Zwingle, ampliara seus horizontes, agora casado, tinha outros afazeres, outras áreas, outras lutas, instigavam sua intensa capacidade de trabalhar e vencer desafios. Como mostrou atuando na Baixada, de modo holístico nas vitórias ocorridas nos últimos anos, ou ainda, na IPI de Matinha, preparando o ambiente para implantação de duas congregações, Santa Maria dos Meireles e Meia Légua. Sem abandonar a igreja, incansavelmente ajudava na congregação de Pinheiro.

Em 2011, fui eleito tesoureiro do Pnor. Concretizava-se um sonho antigo, eu sempre acalentara a vontade de exercer essa função. Em fevereiro de 2020, deixei a função. Foi um aprendizado rico e intenso. Em 2012, com falecimento de mamãe, mudei-me pra São Luís.
Hoje a Baixada Maranhense possui cinco igrejas organizadas. Deus fez florescer (acredito que a nossa obstinação em ter um pastor na região ajudou muito), São João Batista, Penalva, Sacaitaua, vieram se juntar a Matinha e Viana. Contamos com quatro reverendos, dois nascidos na própria região, Elton Campos e Wellington Freire, além de Elias do Prado e Neilton Silva, sendo que três moram nela. “A história da sociedade até aos nossos dias é a história da luta de classes”. Karl Marx. Parafrasearei a famosa frase desse filosofo que admiro, e direi: “A história das IPIs da Baixada, é o resultado de uma ideia que permeou o pensamento de alguns de nós, que foi a luta e a transformou em vitórias”.

Olhando para o passado, não dá pra não agradecer, não glorificar a Deus. Tão pequeninos, tão ignaros, inexpressivos somos, porém tu, na tua imensa, inefável bondade, nos ofereceste, mesmo sem merecermos, o privilégio de ter participado dessa história. Não citarei nomes, não seria justo. Muitos dos heróis e heroínas desta saga, já estão na Glória. Crendo no que dizia Maria de Lola, minha querida mãe, anelo: – “nós nos encontraremos por lá”. A Deus, portanto, toda a honra e toda gloria, pelos séculos dos séculos. AMÉM.

*João Carlos da Silva Costa Leite é cronista e escritor, natural de Matinha – MA. Bancário aposentado, casado, presbítero em disponibilidade da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB). Membro do Fórum em Defesa da Baixada Maranhense (FDBM). Membro fundador da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras (AMCAL), ocupando a cadeira de número 17, cuja patronesse é sua mãe, Maria Jose da Silva Costa Leite. Graduando em Filosofia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

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