Artigo: O almoço das crianças: um conto de Natal à moda Maria de Lola

O dia 25 de dezembro me traz uma das mais belas recordações de mamãe. Todos os dias eu lembro dela, das suas frases, chistes, motes, atitudes, ações, algumas tristes, outras alegres, porém sempre, marcantes e com ensinamentos. Essa reminiscência do dia 25, ela denominava de “Natal das minhas crianças”.

Maria de Lola

Amava o Natal, o nascimento de Jesus significava o acontecimento mais importante da sua vivência cristã. Nenhuma data na igreja era mais prestigiada, eu sempre brincava dizendo: isso é um erro seu, fundamental é a Páscoa, pois representa o sacrifício vicário de Cristo, sua morte e ressurreição; mesmo porque historicamente, temos a comprovação do não nascimento do Messias nessa época do ano; que é uma celebração em favor do deus sol, portanto um evento pagão, um sincretismo, só aproveitado pela nossa religião, etc… mas não adiantava, ao seu olhar, o Natal era mais relevante e ponto final.

Nunca fui adepto do Natal, acho uma festa hipócrita e vazia, que enaltece o consumismo, torna-se desrespeitosa para com o homenageado, Jesus, deturpando sua missão a serviço do Reino de Deus, exaltando o capitalismo selvagem, e suas mazelas burguesas. Maria de Lola me obrigava a repensar essas ideias.

O almoço que preparava para as crianças em Matinha, religiosamente no dia de Natal, operava um milagre, mais ou menos como com o personagem rico do livro Um Conto de Natal, do escritor inglês Charles Dickens, lançado em 1843, um velho sovina e rabugento, o senhor Scrooge, que é salvo pelo espirito do Natal.

Inesquecíveis, inenarráveis num único texto, as emoções advindas desse almoço.
Passava o ano todo em preparação ao evento. Os movimentos se intensificavam a partir do segundo semestre, e chegavam ao seu ápice no mês de dezembro (segundo suas palavras, o mais belo do ano). O décimo terceiro da sua aposentadoria, era todo utilizado para o acontecimento. Comerciantes, políticos do governo e da oposição, amigos, irmãs e irmãos da igreja, ajudavam de todas as formas na construção do ato.

Não tinha vergonha, ia de comércio em comércio, fazendo sua pregação, peregrinando, buscando os donativos. Quanto mais se aproximava o dia 25, maior o seu frenesi, sua atenção só diminuía um pouco, nos dias 8, 15 e 16, aniversários de Palá, meu e de Lauro. A partir daí, cem por cento dos esforços eram envidados em pegar as doações, fossem estas em dinheiro ou produtos, na contratação da carne, do arroz, farinha, preparação do local (o quintal da casa de vovó Lola), confecção de bancadas, pratos, colheres, tudo para tornar a festa das minhas crianças (como chamava), a melhor possível.

Do dia 15 em diante, uma nova etapa se iniciava, ia de casa em casa da cidade, especialmente dos bairros Novo, e depois Galiza, Veronica, nas vias adjacentes a casa onde morava. Quando chegava nas ruas, nas moradias, era festivamente recebida pelas mães, e principalmente pelas crianças, que corriam a abraçá-la. Dava o seu recado, fazia a intimação, bem mais que um convite, para a celebração do “Natal de Jesus”, ressaltando, em alto e bom som, “de Jesus, não de papai noel”.

Enfim o grande dia, tudo já pronto, água gelada na velha geladeira, jarras, pratos, colheres, carne, assada, cozida, frita, salada, farofa, arroz cozinhando desde cedo, em grandes caldeirões, um entra e sai na casa de vovó Lola, o quintal brilhando de limpo, as amigas e ajudantes voluntários e voluntárias (que normalmente participariam com os filhos do almoço), a postos, e Maria de Lola incansável, provando a comida, com aquele jeito que só quem a conheceu sabe, correndo, cantando, mobilizando… a felicidade transbordando.

A turba de crianças vai chegando de modo gradativo, algumas já estão no quintal desde as 6 da manhã. Quem tem mais intimidade, entra pela porta da frente da casa, outros pelo portão de varas do quintal, já previamente aberto. Todos com suas melhores roupinhas, muitas bem pequenas, carregadas nos colos pelas mães ou irmãs mais velhas.

Entravam, sentavam-se nos bancos de juçareiras que foram preparados, todas quietinhas, com aquele olhar fascinado das crianças quando sabem que ganharão presentes. Não se mexiam, paradas educadamente, em baixo da mangueira ou pé de coqueiro, a espera pacientemente do banquete.

Após uma oração, eram servidas, não me é possível identificar quantas, as mães com crianças de colo tinham prioridades. Como no milagre da multiplicação dos pães e peixes retratados pelos evangelhos e que fora praticado por Cristo, todos os meninos e meninas são agraciados e saciados, e mesmo assim ao cabo da ação, sobejava comida.

Gerações inteiras de crianças, hoje já adultas, participaram desse ato anos a fio. Indescritível a alegria e o contentamento destas, talvez tivéssemos uma pequena medida nos sorrisos francos, radiantes, euforicos, esboçados nos rostinhos inocentes. Quanto a mamãe, sua face a iluminada de felicidade, demonstrava a certeza do dever cumprido, da missão realizada, transcendendo plenamente o fator cansaço. Esbaldava – se na crença sincera de que Cristo, o menino Deus feito homem, nascido naquele dia, a motivara, dera suporte.

Convicta de que Ele era o único a ser louvado, engrandecido, honrado, já se movimenta laboriosa, planejando e promovendo preparativos para o próximo “almoço das crianças”.

João Carlos da Silva Costa Leite

Natural de Matinha, bancário aposentado, presbítero em disponibilidade da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil( IPIB), membro do Fórum em Defesa da Baixada Maranhense (FDBM), membro da Academia Matinhense de Artes, Ciências e Letras (AMCAL), e graduando em Filosofia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Uma resposta para “Artigo: O almoço das crianças: um conto de Natal à moda Maria de Lola”

  1. E por que um evento assim tem que morrer junto com sua idealizadora?
    Por que os seus herdeiros não continuam a tradição? Não a imortalizam nesse ato de altruísmo e amor ao próximo. Nessa expressão do cristianismo puro e simples?
    Muito bonito o texto. Até me emocionei. Mas penso que deveria ser mais que só um texto. Podia ser um convite à continuidade desse momento imortal na alma dos pequeninos.

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