Artigo: Discurso de saudação da acadêmica matinhense Edleuza Brito

Professora Edleuza Brito

Discurso da professora Edleuza Brito, realizado em maio deste ano, na Casa da Cultura Josué Montello, em homenagem à Antônio Pedro Brito, patrono da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras. Confiram…

‘Quero saudar a todas as pessoas aqui presentes na pessoa do Senhor Presidente da AMCAL – César da Silva Brito. Caros acadêmicos, autoridades, familiares e amigos. Boa noite!

Quero iniciar dizendo que a Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras (AMCAL) representa para mim, particularmente, uma honra nunca sequer imaginada. Recebi com surpresa o convite para participar desta confraria e o interpreto como um chamamento e missão para somar com outros em ações educativas, que venham favorecer o fortalecimento do processo de emancipação social e educacional de cidadãs e cidadãos de minha terra querida – Matinha.

No entanto, quero deixar claro que tenho consciência da minha limitação retórica, principalmente, se nos reportarmos aos retóricos originados no berço multimilenar dos primores da eloquência aristotélica e demais sábios da fabulosa Grécia, ou aos pregadores da Renascença na pregação do maravilhoso Cristianismo de estilo sublime, ou ainda, aos nobres confrades e confreiras da modernidade, acadêmicos nas inúmeras academias existentes atualmente. Dentre as modalidades de estilos me utilizo do estilo humilde, como sendo o único estilo a contemplar o meu jeito de compreender o mundo que me cerca e, que me permite ser como sou e lhes falar neste momento. Acredito que para a família Brito se configura como um marco solene de reparação histórica no justo reconhecimento da importância de Antônio Pedro Brito (meu avô, nosso avô) para a história do município de Matinha. Esse patriarca possui muitos descendentes impolutos e possuidores de grande capacidade intelectual, inclusive dentre os que aqui estão. Porém, quis Deus que fosse eu, Edleuza a fazer esta honraria.

Quero pedir licença a Kleber para usar uma de suas frases do Canto para um canto! “Pique um dois três, o destino chama é a nossa vez…” É a nossa vez de prestar uma honraria a um homem simples, um baixadeiro de nascença, que contribuiu com o processo de emancipação de Matinha. É comum ouvir entre os membros da família e amigos, histórias e lamentações quanto ao não reconhecimento do que representou Antônio Pedro Brito para a construção do município de Matinha. Por isso, este momento foi planejado carinhosamente para destacar algumas de suas boas ações cotidianas a muitos dos seus contemporâneos e alguma contribuição que se estende e ressoa no que Matinha
vem se tornando.

O honorário Antônio Pedro Brito, natural de São Bento, nascido em setembro no ano de 1900, filho de Mariano Brito e Bárbara Dourado Brito, imigrantes de São Bento, chegaram a Matinha em 1916, onde firmaram morada e não mais saíram. Antônio Pedro viveu sua juventude em Matinha desde os seus dezesseis anos, em uma época remota quando Matinha era apenas um pequeno povoado classificado como distrito do município de Viana – MA. Antônio Pedro casou-se com Rosilda Gonçalves Penha, filha de Raimundo Vicente Penha e de Galdina Gonçalves Penha, quando ambos eram apenas dois adolescentes; ele com 17 anos e ela com 15 anos de idade. Casaram-se e tiveram 15 filhos. Ressalta-se aqui, o talento para a música que esses filhos, de certa forma, demonstraram ter e que vem passando para as gerações mais novas.

As suas filhas gostavam de cantar e cantavam harmoniosamente com tons bem afinados, já os filhos varões aprenderam a tocar de forma autodidata vários instrumentos – instrumentos de sopro, instrumentos de corda e de percussão. Além desses filhos do seu casamento, ele teve outros 9 filhos com uma mulher da sua própria parentela, fato aceitável no comportamento machista da época. Antônio Pedro Brito era um homem alegre, que gostava muito de cantar, de tocar violão e, depois dos seus 40 anos (somente depois de 40 anos), adotou uma vida mais boêmia com os amigos. Dentre estes destaca-se, Francisco das Chagas Araújo (o Dr. Araújo), Juarez Silva Costa, Ulisses Sousa e Silva, Baiardo Sousa e Silva, Manoel Silva, Raimundo Silva (o Seu Mundiquinho Silva) e outros, sempre degustando a boa Belas Águas – a cachaça produzida no alambique dos Costa e Silva naquele tempo, no povoado de mesmo nome.

Eles tinham um gosto musical eclético, mas com preferências pela bossa nova, boleros e sambas de raiz. Antônio Pedro pode ser classificado como um músico popular autodidata, visto que nunca estudou música e produzia músicas de ouvido. Uma curiosidade: Ele e sua esposa Rosilda eram canhotos, assim como muitos dos seus filhos que também nasceram canhotos. Porém, ele pegava qualquer violão e não trocava nenhuma das cordas do violão de posição para poder tocar como canhoto. Em Matinha ele se tornou, reconhecidamente, uma pessoa generosa. Diariamente ia comprar comida no mercado, como é o costume no interior até hoje, e sempre que chegava ao mercado percebia o “olhar pedinte” de pessoas muito pobres que não tinham dinheiro para comprar “o pão nosso de cada dia” e, principalmente, das mulheres profissionais do sexo, que em consequência de sua condição social, eram repudiadas pela sociedade e sofriam toda sorte de privações, preconceitos e discriminações das “pessoas de bem da época”.

Essas mulheres costumavam ficar escondidas atrás das colunas do mercado para mendigar a um e a outro, algo que pudessem levar para seus filhos em casa. Observando tamanha necessidade, ele passou e exercer misericórdia por essas pessoas desvalidas. Então, virou costume elas ficarem à espreita, aguardando a chegada dele no mercado. E todos os dias ele, generosamente, distribuía a cada uma a mistura ou outro mantimento que elas pedissem para alimentar suas famílias, que normalmente eram formadas por uma quantidade significativa de crianças. Antônio Pedro não fazia acepção de gente e tratava bem todas as pessoas. Na época em que ele viveu, a pobreza em Matinha era um destaque que saltava aos olhos. As casas em sua maioria eram feitas de taipa e cobertas de palhas de palmeiras de babaçu e muitas eram feitas totalmente dessas palhas. Matinha era um povoado com carência de tudo. Não existiam estradas e o que era comercializado chegava de lanchas ou nos lombos de animais. No entanto, esse homem possuía bom coração e nunca se importou em acumular bens ou riquezas para si.

O que ele possuía era repartido com o seu próximo mais necessitado que viesse pedir sua ajuda e, por várias vezes deu o último tostão que tinha no bolso e chegava em casa só com o mantimento daquele dia. E assim ele viveu e morreu no dia 09 de novembro de 1973, com 73 anos, sem deixar bens materiais como herança. Contudo, alguns ainda podem se perguntar o porquê da honraria a Antônio Pedro Brito. Qual o legado desse homem para a história do Município de Matinha? Em 31 de dezembro 1948, Antônio Pedro Brito, então Procurador Titular do Cartório de Matinha, lavrou a Ata da Lei 267 em 1948 que elevou Matinha a categoria de município, cuja data oficial de Emancipação política é 15 de fevereiro de 1949. Esta é uma história com muitos braços, inclusive tem em João Amaral da Silva, o Juca Amaral, um dos protagonistas desse feito.

Neste contexto vale ressaltar, a caligrafia de Antônio Pedro como tabelião, que é de uma perfeição invejável, comentada por sua beleza até hoje por aqueles que tiveram ou têm acesso aos documentos que ele redigiu. Encontra-se cunhada nos documentos que oficializam suas ações, inclusive nas questões judiciais, que eram tratadas pela sua dinâmica e implicavam em argumentações para resolver a problemática emergente. Tensões e conflitos em torno dos direitos humanos, na prática, sempre existiram como reflexos dos costumes e culturas, mas fundamentados no resguardo da vida humana e na garantia da dignidade e do patrimônio. Nisso Antônio Pedro Brito também atuava como um dos interventores, e buscava o consenso em casos de desentendimentos ou conflitos entre membros da comunidade. E sempre que necessário, ele podia contar com auxílio jurídico do Sr. João Carvalho, Advogado do município de Viana – MA.

As afirmações aqui contidas partem de documentos e relatos dos acontecimentos e relacionamentos na sociedade e de normas vigentes com suas origens no passado. Torna-se imperioso conhecer as nossas raízes para saber fazer corretas inserções, cujas orientações desencadeiam na construção da sociedade matinhense da atualidade, de modo a dar o devido reconhecimento àqueles que tiveram sua importância na consolidação dessa sociedade. Dedica-se esta honraria a Antônio Pedro Brito e por extensão a todos os “Britos” descendentes dele em todo grau de parentesco, em especial, àqueles já falecidos, mas, que em vida, integraram essa imensa família de homens, mulheres, jovens e crianças que carregam consigo o sangue e afirmam com veemência o orgulho da sua descendência aqui destacada a partir de “Papai Pedro” – nome carinhoso dado por seus netos e assimilados por tantos outros,  que nem parentes de sangue eram, mas que assim também o chamavam. Como reflexo da doçura, da alegria e do amor com que ele tratava a todos nós.

E finalmente, dedicamos a todos aqueles homens e mulheres de Matinha e de Viana, que conheceram e conviveram com Antônio Pedro Brito, testemunhas oculares da sua história, da sua conduta simples, da sua bondade, da sua honestidade e da sua generosidade como amigo de todos os seus contemporâneos.

Muito obrigada!

Edleuza Nere Brito de Souza
Acadêmica AMCAL

Uma resposta para “Artigo: Discurso de saudação da acadêmica matinhense Edleuza Brito”

  1. Parabens pela o iciativa que significa um pleito de justiça a quem muito contribuiu para a consolidação de uma comunidade. Congratulamo-nos com esta homenagem e com o verbo oratorio de uma das legitimas representantes da familia Brito

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