Artigo de João Carlos: Pérolas de Maria de Lola

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Nascida em 16 de julho de 1926, Maria José Amaral da Silva, casou-se aos 26 anos (ou seja, para os padrões da época, ela já tinha “atirado na macaca”, já estava “chibarra”), incorporou o sobrenome de seu esposo Juvêncio, o Costa Leite, passando a denominar-se Maria José da Silva Costa Leite. No entanto, todos a conheciam como “Maria de Juvêncio”, ou de modo mais escondido, “Maria Capijuba”, uma alusão ao apelido de papai, Juvêncio Capijuba, o que ela não gostava; e de “Maria de Lola”, epiteto que adorava. Dizia, numa época em que o feminismo ainda não estava na moda, como atualmente, em que as mulheres temiam seus maridos, pais, pastores, lideranças espirituais, principalmente numa criação baseada dentro dos padrões do protestantismo (meus avós haviam se convertido nos idos de 1920 à igreja Presbiteriana Independente), numa cidadezinha nos confins da Baixada Maranhense, uma frase que dava muito pano pra manga,” de Lola vou ser sempre, de Juvêncio, só enquanto for casada”.

João Carlos Leite

Maria de Lola era uma mulher além do seu tempo. Lembrando que Lola, era Rita Dolores Amaral Silva, mãe dessa maravilhosa mulher, da qual tive o privilégio de ter nascido. Vovó Lola era irmã de João Amaral da Silva, Juca Amaral, o homem responsável pela emancipação política de Matinha, e criador do grupo político Silva/Costa. O pai de mamãe chamava-se Sebastião Justino da Silva.

Foi minha primeira filósofa inspiradora, antes de Platão, Sócrates, Aristóteles, Santo Agostinho, Descartes, Hanna Arendt, Walter Benjamin, Marilena Chauí. Sua filosofia, às vezes popular, outras com base em textos bíblicos, fascinaram minha vida, seus aforismos me estimularam ao estudo, e ao conhecimento. Conseguia fazer tiradas, frases de efeito, para todos os momentos da vida, na tristeza ou na alegria, era uma leitora contumaz da Bíblia e de outros tipos de literatura. Com ela aprendi a gostar de alguns autores clássicos, como Josué Montello. Jorge Amado, José Lins do Rego, bem como Bram Stoker, que escreveu o Drácula, Edgar Rice Burroughs, escritor de Tarzan. Havia um outro, chamado Malba Tahan, que embora sendo brasileiro, usava o pseudônimo árabe, escreveu o livro o homem que calculava, onde ensinava didaticamente, e de forma bem lúdica, a matemática. Líamos ainda uma profusão de outras modalidades, principalmente bolsilivros, de faroeste, espionagem, guerras. Éramos fissurados por essa espécie de literatura, eu chegava a ler quatro deles, só num dia. Foi junto com Ana Rita, Tchem, aquela que me criou, uma estimuladora para meu gosto pelos livros.

Muitas coisas podem ser ditas ou escritas sobre ela: seu amor pelas crianças, sua fé em Deus, seu prazer em cozinhar peixe no leite de coco, suas

querelas com algumas pessoas, seu amor incondicional aos filhos, são tantos eventos que daria um livro inteiro, e eu pretendo um dia, escrevê-lo.

Este texto vai tentar fazer um resgate de muitas frases, verdadeiras perolas, que durante a minha vida, a ouvi declamando. Não sei se conseguirei lembrar todas:

1- “Só a morte é soberana sobre a ambição humana” Falava esta frase quando havia falecimento de alguém famoso, ou quando essa pessoa era muito rica, arrogante, sem fé em Deus, enfatizando que não adiantou tanta prepotência, ou procura ambiciosa. Representava a pequenez das pessoas, dos seres humanos, diante da inexorabilidade da morte. Ali agora não adiantava luxo, fortuna, cor da pele, projeção de poder, a soberania da morte faz-se altissonante diante de quaisquer atos ou ações humanas;

2- “Até nas flores se vê a diferença da sorte, umas enfeitam a vida, outras, ornamentam a morte”. Toda vez que acontecia uma ação de racismo, preconceito, alguém era discriminado por seus atos em detrimento de outrem. Quando pessoas eram olhadas de modo diferenciado, havendo ambos, no seu ponto de vista, estado em condições de igualdade, ela soltava esta pérola. O objetivo era mostrar que sempre somos tratados na sociedade de forma desigual, quando alguns são discriminados, outros são elevados, que existem inúmeros fatores a influenciar o mover humano, que a igualdade, não é um fim em si mesma; o preconceito será, nessa sociedade desigual o motor a conduzir os ditames do que denominamos civilização;

3- “Eis os milhões que em trevas tão medonhas, jazem sozinhas sem o salvador”. Acontecia sempre em épocas de festejos católicos, quando havia aquelas procissões, ou novenas. Referia-se a uma música chamada Quem irá?, da Harpa Cristã, muito famosa na geração dela, ali ela expunha todo o seu entendimento sobre a disputa protestantes x católicos, que sempre permeou as disputas religiosas, e que na sua mocidade eram bem mais frequentes;

4- “Deus proverá” Baseava-se no texto bíblico de Genesis 22: 8, quando o patriarca Abraão sobe com Isaque o monte para fazer holocausto a Deus, e lhe é questionado pelo filho sobre o cordeiro a ser sacrificado, obtendo esta resposta do pai. Normalmente nos falava esta frase quando perguntávamos sobre algo que estávamos esperançosos, ratificando a certeza de Deus iria resolver o problema. No seu tempo devido, não no nosso, e que dEle, só dEle, viria a solução, a resposta, as nossas inquietações, portanto o que precisávamos era descansar em Deus;

5- “Quando o rato enjeita queijo e a moça ca

samento, ou o queijo tem pimenta, ou a moça algum intento”. Quando alguém praticava uma atitude ou ação aparentemente difícil de compreender, inverossímil,

alguma coisa por trás de algum comportamento, algo incompreensível, não demonstrando razoabilidade, que aparentemente denotasse intenções ocultas ou inconfessáveis, certamente alguma coisa estava errada;

6- “O tempo pediu ao tempo que desse mais tempo ao tempo, daí respondeu o tempo: com o tempo, tudo tem tempo”. Alguém estava apressado, desanimado, decepcionado com alguma coisa, outra pessoa, saia-se com esta frase, quer dizer, o tempo cura qualquer ferida, não importa qual seja ela;

7- “Meu filho é meu filho, filho dos outros, é filho dos outros”. A famosa mãe galinha. Deixava claro o seu lado, seu partido, sua bandeira. Sua personalidade forte impunha-se ante os que se interpusessem no seu caminho. E essa personalidade tomava proporções gigantescas quando o problema incluía filho ou filha. Independentemente do que fizera, o era este ou esta que estavam certos. Nada, nenhum argumento, por melhor que fosse, nenhuma realidade mais patente, a faria ficar a favor de outra ´pessoa e ir contra algum filho dela;

8- “Nunca vi um justo abandonado, nem a sua descen

dência mendigar o pão”. Baseava-se no Salmo 37: 25, segundo a Bíblia um Salmo de Davi, onde o autor revela a sua plena confiança em Deus, não só da sua vida, mas de toda a sua posteridade, geração. Essa certeza era proclamada a todo momento;

9- “Toda criança é prodígio, todo velho é babão”. É da natureza da criança ser genial, alegre, cheio de saúde. Quanto aos velhos, sua debilidade salta aos olhos, um é a antítese do outro. O carinho de mamãe, quanto as crianças, era emocionante, na igreja ela se deixava cercar pelos pequeninhos. Durante anos a fio, levava merenda para estes, com gastos tirados do próprio bolso, nas escolas dominicais;

10- “Filho tu és, pai tu serás”. Quando um dos filhos respondia de forma ríspida, era mal agradecido, questionava atitudes dela ou de papai, a desagradava, era como se dissesse, o que eu estou passando hoje, certamente tu também iras passar;

11- “Tu és pó, e ao pó voltarás”. Uma confirmação da nossa finitude, referia-se ao texto de Genesis 3: 19 quando Deus fala a Adão da essência do seu ser, do seu início e fim, deixando claro que o ser humano possui começo e fim: saímos do nada, o pó da terra; e a ele retornaremos;

12- “Amor e uma cabana, não prospera”. Fazia essa observação quando alguém dizia que amava a outrem, queria casar independentemente da situação que se apresentava, da crise momentânea, que viveriam felizes mesmo sem terem condições financeiras, ou seja, não basta só

o amor,

para que uma vida a dois consiga prosperar, pois irá existir o dia, o cotidiano;

13- “Até quando, senhor?” Esta frase interrogativa era um questionamento a Deus, em virtude dos sofrimentos a que estava exposta, ao mesmo tempo uma entrega, como que dizendo, me leva Senhor, revelava seu cansaço com a vida;

14- “Caveira quem te matou? Língua.” Ditado famoso, feito para mostrar o quanto este órgão pequeno, pode ser maléfico para a nossa vida, normalmente um pedido para se contivesse em observações inócuas e desnecessárias;

15- “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade”. Baseado no texto

de Eclesiastes, quando Salomão conclui que no fundo, no fundo, tudo que fazemos ou praticamos, é vaidade;

16- “Com Jesus tá tudo bem”. Uma das suas últimas frases, já com seus dias finalizando, cega, sem poder andar, voz fraca, o corpo fragilizado pelo diabetes, mas mente ainda lúcida, sã, falava sempre que chegava alguém perto dela, e esta perguntava como estavam as coisas, como estava sua saúde. “Como vai assenhora, dona Maria?” “Tudo bem”, respondia e completava, pois, “estando com Jesus, tá tudo bem”;

17- “Jesus é o médico dos médicos”. O senhorio de Jesus está acima de tudo. Quando acontecem acidentes conosco, quando achamos que do ponto de vista do conhecimento da medicina, as coisas não dão certo ou parecem não ter mais jeito, o médico dos médicos, Jesus, detém todo o poder;

18- “Filho meu, dá-me o teu coração”. Ao usar essa frase ela se referia ao texto de provérbios 23;26, e trazia a nossa mente a mensagem do Pai ao filho, no quesito obediência;

19- “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” Baseava-se em provérbios 9;10. Tinha certeza que toda a sabedoria originava-se em temer aos princípios de Deus, a partir daí tudo traria conhecimento, portanto não adiantava ter muita sabedoria e não ter temor a Deus;

20- “Se a morte é um descanso, eu prefiro viver cansado”. Ditado popular em que ela reafirmava seu amor pela vida, dizendo de forma alegre e irônica, o quanto esta é importante;

21- “Há males que vêm para o bem”. Outro ditado popular que ela usava com maestria, na confirmação da soberania de Deus sobre as nossas vidas, onde até naquilo que pensamos ser mau pra nós, Deus transform

a em algo bom;

22- “Todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus”. Referência ao texto 8;28 de romanos, onde é reafirmada a certeza que todas coisas no universo estão sob a direção de Deus, no final, será sempre para Sua honra e glória, sendo que os que O amam, sairão vencedores;

23- “O costume do cachimbo é que faz a boca torta”. Outro ditado popular, para dizer que as pessoas se acostumam com o que fazem, e às vezes, mesmo inconscientemente o praticam. Quem faz coisas ruins, está fadado a continuar fazendo-as, pois isto já é um costume;

24- “Não desanimes por ser tua cruz maior que a do teu irmão, a mais pesada levou teu Jesus, te conforma então…”. Uma referência ao hino A mão no arado, da harpa cristã, número 394. Uma certeza de que por maior que seja o nosso sofrimento terreno, o sacrifício de Jesus foi infinitamente maior, isto nos serve de consolo;

25- “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24;15). A demonstração cabal de que uma família serva do Senhor Deus, é sempre vencedora. Mais uma vez reafirma a soberania de Deus sobre nossa família e o caráter de submissão aos preceitos do Pai Eterno;

26- “Tudo me é licito, mas nem tudo me convém”. 1ª Epistola de Coríntios 6;12, Deus criou o homem para a liberdade, mas ele deve tê-la sob controle, afinal vivemos numa sociedade, e não vale a pena, por causa de acharmos que estamos certos, agir de modo ofensivo contra os outros. Um chamado ao exercício da moderação, no falar e no agir;

27- “Nem só do pão viverá o homem”. Em Mateus 4:4, Jesus fala claramente sobre aquilo que preenche a nossa vida, que a palavra de Deus é muito mais importante para nós. Que a procura por pão (comida), não é o mais importante;

28- “O homem feliz não usava camisa”. Uma história com muitas versões, mas uma só verdade: a roupa, o dinheiro, o poder, não trazem satisfação, contentamento, nossa procura as bem aventuranças não passam, necessariamente, por bens materiais, e esse episódio, que retrata um califa muito rico a procura da felicidade, nos mostra essa verdade;

29- “Mais vale um pão seco com harmonia, que uma mesa farta com contendas”. Uma das frases que ela mais gostava de falar. Baseada em provérbios 17:1. Acontecia normalmente, quando comentava algumas situações de casas cheias de farturas ou riqueza, porem eivadas de brigas; e vendo a nossa pobreza, usava esse aforismo;

30- “Na morte não há lembranças, no sepulcro, quem te louvará?” Quando ocorriam aquelas discussões sobre se existe vida após a morte, se pessoas que morrem podem voltar para conversar com os vivos, ela citava Salmos 6:5. Mamãe era inteiramente cética quanto a esses assuntos de reencarnação ou de gente que depois de morta, voltava a aparecer aos vivos;

31- “Tolo, hoje mesmo te pedirão tua alma, e o que tens reservado, para quem ficará?” Referia-se ao texto de Lucas 12:20, que traz uma observação quanto a avareza humana, não vale a pena acumular riqueza na terra, nossa estada aqui é passageira. Não devemos guardar tesouros na terra, estamos aqui só por um momento, nossa morada eterna será no céu, ao lado do Pai;

32- “Filho de peixe, peixinho é”. Uma constatação de que as pessoas normalmente seguem aos pais, esses ensinamentos, ou talentos, segundo ela, seriam hereditários, isto serve para o bem e para o mal;

33- “Em tudo daí graças a Deus”. Baseado em 1ª Tessalonicenses 5:18, significava que nada justificava qualquer atitude contra Deus, pelo contrário, em todas as situações sejam elas boas ou más, nossa missão era agradecer ao criador;

34- “Panela que muitos mexem, ou sai insosso ou salgado”. Originalmente um provérbio português. Ela o usava quando havia muita bagunça, querendo dizer que não daria certo. Usava então o exemplo da culinária, área que ela tão bem conhecia;

35- “A Vida é combate, que aos fracos abate, que os fortes e bravos só podem exaltar: coragem meu filho, viver é lutar”. Uma referência ao poema Canção do Tamoio, de Gonçalves Dias, poeta maranhense, muito famoso. Utilizava o termo para dizer que a vida só serve para ser bem vivida se tivermos condições de lutar por ela, os problemas acontecem, porém, com força e fé, sairemos vencedores. Quem nasceu teve o privilégio de já ser um vencedor, e isto será uma constante durante todo o percurso da vida;

36- “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”. Evangelho de João 16:33. Uma chamada àqueles que com base no evangelho fácil, se acham isentos de sofrimento, e que quando este vem, passam a maldizer a Deus;

37- “Para a fome não há lei: Davi quando teve fome, entrou na casa do Senhor, e comeu os pães da preposição”. Mateus 12, 3 e 4, quando Jesus, demonstrando seu conhecimento da Torá, faz referência ao episódio em que o rei Davi, no livro de primeiro Samuel, come os pães que estavam preparados para os sacerdotes, coisa proibida a época;

38- “Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe”. Um provérbio, dos muitos que gostava de citar. Exemplificava quanto nada é eterno na vida. Que embora nos pareça eterna dor a qual sentimos, ou prazer que experimentamos, todos eles, amor ou dor, terão um fim;

39- “É mais fácil levar um touro ao mourão, que um burro à razão”. Outro adagio popular, dizia da impossibilidade de levarmos alguém ignorante, grosseiro, a reconhecer seus erros. Portanto, é melhor lidar com um animal brabo;

40- “Pai e mãe é bom, mas barriga cheia é melhor”. Mais um adágio popular, creio que de origem latina, servia para ironicamente dizer que nada substituía a sensação de saciedade da carne;

41- “Quem não rouba e não herda, enriquece é…”. Ditado popular muito conhecido. Uma reflexão ao real entendimento dos seres humanos sobre essa arte que é ficar rico, e as impossibilidades para chegar lá, não herdando ou roubando;

42- “A duração da vida é de setenta anos, chegando alguns a oitenta, o que ultrapassa é canseira e enfado”. Referia-se ao salmo 90:10, onde Davi dizia que depois dos oitenta anos de vida, não se tem mais alegria, perde-se a vontade de viver, a vida vira então um fardo pesado, sendo carregado;

43- “Tudo passa, só o amor de Deus é eterno”. Música evangélica o amor de Deus, canto bem antigo que ela às vezes entoava e nos ensinava que neste mundo só o amor de Deus dura pra sempre, tudo o mais é passageiro;

44- “Meu bucho não conhece as horas”. Comia de tudo e a todo instante, pato, melancia, peixe no vinho de coco de noite, mocotó, para ela não tinha tempo ruim, era comida com sal, com açúcar, farinha em grande quantidade, comida “remosa”, na verdade nem acreditava nessas bobagens. Quando questionada sobre esses excessos, saia-se com a pérola de que sua barriga não tinha relógio;

45- “O bezerro manso mama na mãe dele e na dos outros, o brabo nem na dele”. Essa acontecia na nossa infância, quando nos zangávamos ou mostrávamos brabeza, ela se saia com essa frase, que era uma exaltação ao princípio da mansidão, da não violência;

46- “Quem quer dar, acha pau”. Essa era falar que não há limite no oferecer das coisas, que os obstáculos só existem quando não queremos fazer realmente, e ficamos dando desculpas;

47- “Onde tem fumaça tem fogo”. Um aviso para prestar atenção às coisas que parecem simples, mas que no fundo podem trazer resultados maus. Sempre há alguma coisa por trás de qualquer ato ou ação, nada é gratuito, tudo está imbricado;

48- “O proibido é desejado”. É histórico, tudo que é proibido nós desejamos com mais ardor. Ela sempre citava como exemplo a passagem bíblica de Eva ao desejar o fruto proibido no jardim do Éden;

49- “Quando tamborzinho toca, tambor grande já tocou”. Toda notícia que viesse de alguém subalterno na área política ou empresarial, já havia sido defendida ou posta pra fora pelo maioral, isto servia para qualquer intepretação. Ela entendia que sempre tem alguém por trás um plano;

50- “Ninguém quer ser culpado, vem desde o Éden, quando Deus perguntou pra Adão porque comera do fruto proibido, este respondeu: a mulher que vós me destes, Senhor; perguntada, Eva, jogou a culpa na serpente”. Ela se referia ao texto de Genesis 3.11 em diante, quando Deus conversa com Adão e Eva sobre terem comido a fruto da arvore proibida, portanto desobedecido as ordens do Senhor. Ao Deus interpelá-los, ficavam jogando a culpa uns nos outros, nunca assumindo a esta;

51- “…Siga o enterro”. Essa frase baseava-se na história de um homem muito preguiçoso, que não tendo o que comer, resolveu ser enterrado vivo. A caminho do cemitério, no seguimento do féretro, alguém pergunta o porquê daquele ato insano, obtendo a resposta, decidiu penalizado ajudar, propôs: – Não enterra, eu dou arroz para ele. O preguiçoso, erguendo a cabeça de dentro do caixão, pergunta: – Está cozido, esse arroz? – Não, responde o homem do coração bondoso, – Então, disse o candidato a cadáver, – Não adianta, siga o enterro. Toda vez que alguma pessoa queria algo fácil, sem qualquer trabalho, sem dar duro, contava essa história, e finalizava…” Então siga o enterro”;

52- “Quem ama o feio, bonito lhe parece”. Mulher de leitura razoável para a época, ela gostava muito de se referir a ditados, provérbios, aforismos. Esse era mais um, quando alguém vinha e falava da discrepância do namoro ou casamento entre uma pessoa, de nenhum predicado de beleza em relação a outra, saia-se com essa;

53- “O pouco com Deus é muito, o muito sem Deus é nada”. Quando nas inúmeras vezes em que reclamávamos, pobres que éramos sobre a quantidade de comida na mesa, ela dizia esta frase;

54- “Maior é Deus no céu e nada mais”. Mamãe e papai gostavam de fazer menção a esta frase que inicia uma música de Francisco Alves, famoso cantor brasileiro das décadas de 30 e 40, chamado também de Chico

Alves ou Chico Viola, denominada “maior é Deus”. Era sempre utilizada seguindo o ritmo da bela letra, quando se falava da degeneração na humanidade;

55- “Eu tô que nem puta de quaresma”. Reafirmava com essa frase sua falta de dinheiro, numa alusão às representantes da mais antiga profissão do mundo, que no período da Quaresma, época compreendida entre a quarta-feira de cinzas e o Domingo de Ramos, ocasião em que eram proibidas de vender o corpo, deixando portanto, de terem alguma renda;

56- “Cala a boca Etelvina, sossega a língua ferina”. Música muito famosa no final da década de 50. Referia-se ao filme do mesmo nome, uma chachada dirigida por Eurípedes Ramos, num roteiro baseado na peça teatral de Armando Gonzaga. Usa o termo sempre que ocorria algo que não era pra ser dito, ou quando a linguagem era muito dura ou rude;

57- “Quando a esmola é grande, o pobre (ou o cego) desconfia”. Ditado popular muito famoso e antigo. Utilizava-o quando alguém fazia um favor desmedido, ou fora de propósito;

58- “Quem vê cara, não vê coração”. Mais um ditado popular que ela sempre utilizava. O sentido era de que o que vemos muitas vezes não representa a realidade;

59- “Coração é lugar que ninguém passeia”. Falava isto sempre que algum fato curioso ou surpreendente ocorria. Uma pessoa calma ou de índole não violenta, praticava uma atitude fora do comum;

60- “Quem de novo não morre, de velho não escapa”. Ditado popular, queria dizer que se não morreu novo, certamente morrerá na velhice, mais uma confirmação da inexorabilidade da morte;

61- “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Uma maneira diferente de dizer o ditado popular “olho por olho dente por dente”, ou o “aqui se faz aqui se paga”. Gostava muito de falar essa frase quando acontecia algo a alguém que havia praticado esse mesmo delito tempos atrás;

62- “Onde há fumaça há fogo”. Nada é de graça, se alguma coisa é falada ou tornada pública, existe algo por trás;

63- “Quem fala muito, dá bom dia pra jumento”. Quem fala muito, demais, coisas fora do contexto, acaba se dando mal. Embora fosse muito faladeira, mamãe de forma sábia, entendia essa verdade;

64- “Falar é prata, calar é ouro”. No mesmo sentido da frase anterior, ela punha numa sequência ascendente esses dois atos, se exprimir-se falando era importante, o calar-se, era mais;

65- “Pinto que não ouve choco, gavião carrega”. Mais uma frase lembrete, em especial aos filhos, que levados pelas vaidades da idade, esquecem-se das palavras de pai e mãe. Consequentemente estarão fadados a se arrependerem, muitas vezes amargamente;

66- “Poderoso só Deus”. Mais um chamamento a realidade de que só existe um poderoso, Deus. Todos os outros, políticos, magistrados, bandidos, etc….são falsos poderosos. Só Deus tem o verdadeiro poder;

67- “A ingratidão tira a afeição”. Não existe amor que resista a ingratidão, por maior e mais intenso que ele seja, sua tendência é acabar;

68- “Quem quer pegar galinha não diz show”. Para alcançarmos um objetivo necessário se torna, sermos cordatos e amigos. Pra chegarmos a um objetivo, nunca poderemos agir de modo violento, pois em assim fazendo, estaremos espantando o que queremos;

69- “Quem busca achará, quem pedir vai obter.” Uma referência ao evangelho segundo Mateus 7: 8, numa demonstração de que o grande amor de Deus está sempre ao alcance dos que o procuram, também existia uma música da harpa cristã com essa letra;

70- “Violência gera violência”. Uma constatação de que o que se dá, se recebe. Avessa a qualquer tipo de violência, mamãe nos ensinava que não adiantava agir com métodos violentos, agressivos e tentar receber gentilezas;

71- “Não há um justo, nenhum sequer”. Referência ao texto de Romanos 3,10. A certeza de que todos somos pecadores. O apostolo Paulo mostra nesse versículo a universalidade do pecado, e o tamanho do sacrifício que Cristo enfrentou;

72- “Em pecado me gerou minha mãe”. Salmo 51,5. Retrata o opróbrio do rei Davi, que saíra de um episódio triste para sua vida diante de Deus;

73- “Deus escreve certo por linhas tortas”. Frase muito usada, de cunho puramente calvinista. Declara a soberania e senhorio de Deus, além da nossa total dependência aos seus desígnios, que embora não o compreendamos, estarão sempre no estabelecimento do nosso bem;

74- “Quanto menos somos, melhor passamos”. Outro ditado popular muito utilizado por ela. Referia-se ao espirito de egoísmo latente no nosso ser;

75- “Casa de ferreiro, espeto de pau”. Ditado antigo, ela o usava quando alguém não usava suas habilidades em seu favor, ou quando sendo e

em

eriam ser muito justos, mas usavam de injustiças ante seus familiares;

76- “Pra conhecer alguém de verdade, tem que comer uma saca de sal juntos”. Ditado muito conhecido no Nordeste, reafirma o quanto é difícil de conhecer uma pessoa, por mais que ela more conosco, participe da vida cotidiana, nós nunca a conheceremos verdadeiramente, pois o ser humano é imprevisível;

77- “Quem come do meu pirão, apanha do meu cinturão”. Quer dizer: quem está debaixo do meu cuidado, quem vive sob o meu teto, tem que fazer o que eu quero. Dizia bastante essa frase, até para que pudéssemos nos libertar e termos vida própria, não ficar dependendo de ninguém;

78- “Ou o sol desceu, ou a terra subiu”. Sempre que havia muito calor em Matinha, aquele mormaço grande, quase insuportável, ela saia-se com essa frase.

Estes 78 bordões são apenas uma pequena faceta da personalidade dessa incrível mulher, chamada Maria José da Silva Costa Leite. Seriam necessárias muito mais citações, dizeres, aforismos, perolas, páginas a serem escritas para melhor descrevê-la. Eu aqui poderia apenas coloc

ar alguns tópicos, para quem sabe, no futuro, se Deus permitir, fazer uma explanação:

a) Sua fé sem limites nos desígnios do Criador, ela cria piamente na soberania de Deus. Uma calvinista empedernida;

b) Seu incondicional amor aos filhos, ninguém era mais importante q

ue estes, pelos filhos morria ou até matava;

c) Seu amor pelos pequeninos. Não media esforços agradar crianças;

d) Sua disposição em gritar contra as injustiças;

e) Sua sinceridade impactante.

João Carlos Leite, graduando em Filosofia, membro da Academia Matinhense de Artes, Letras e Ciências e membro do Fórum em Defesa da Baixada Maranhense

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