Artigo: A casa do Posto de Revenda e o Pé de Ginja, um sabor de lembranças

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Onde hoje é a residência do casal professor Manoel Torquato Silva e da presbítera e professora Izilene Mendonça Silva, na rua Cel. Antonio Augusto Alves da Silva, outrora existiu um uma moradia, que divisava do lado direito com o quintal de tia Ninita, do lado esquerdo com o casarão de João Amaral da Silva, o tio Juquinha, homem responsável pela fundação de Matinha, numa área que chamávamos, genericamente de usina, onde tinha dentre outros apetrechos, selas, cangalhas, lenha, patachos, machados, foices, peças de carro, gasolina, etc., e  um motor a diesel que sustentava  o   pilador de  arroz.

Seu quintal estendia-se   vários metros limitando-se com os de Ulisses Silva e de Juarez Costa. Do outro, ainda margeava o terreno de Juca Amaral, que era imenso, na parte pós usina, circundando   o curral dos bovinos,  as acomodações dos cavalos e burros, os estábulos. Era uma habitação meio soturna, já amarelada pelo tempo, em suas paredes que um dia, muitos anos atrás, creio, foram brancas. Meus tios Ademar e Terezinha, moraram ali. Não lembro, quando me entendi como gente, eles já estavam no domicilio em frente ao lar de vovó Lola, que fora anteriormente de Gustavo e Aniquinha. Administravam uma farmácia chamada “Santa Terezinha”, naquele famoso quadripé do nosso eterno amor: a  intersecção  da rua Cel. Antonio Augusto Alves da Silva e a Rua Dr. Afonso Matos, que tinha num canto o casarão de  João Amaral da Silva; à frente, da outra banda, a casa de seu Miguel Brito;  formando com a casa da minha avó, o cenário que insiste em permanecer vivo, apesar do tempo, na minha mente e coração, e que foi  tão bem retratada pelo poeta Kléber Brito, na sua canção canto para um canto, imortalizado através do  extraordinário trocadilho, que só quem viveu no cruzamento das duas ruas, ou nas suas proximidades, consegue entender a dimensão:  .”..por isso eu canto, e o meu canto é Matinha 

A casa possuía uma entrada, dividindo um salão que servia de comércio, cognominado pela população de “posto de revenda”.  Minha geração acostumou-se a ver sucederem-se diversos funcionários do Estado que o utilizavam para vender ou distribuir equipamentos e produtos ligados à agropecuária. Ali se encontrava sementes de milho, feijão, arroz, carrapato(mamona), amendoim, quiabo, melancia, bem como, produtos que atualmente concluímos serem agrotóxicos. Dentre estes, o DDT (sigla do Dicloro Difenil Tricloroetano), que foi o primeiro pesticida moderno. Hoje proibido, o DDT foi bastante utilizado   no período pós a segunda guerra mundial, no combate à malária (impaludismo), doença frequente na Baixada anos atrás, do lado direito de quem entrava. Do lado esquerdo, duas ou três salas, que serviam para a gestão do município usar como bem lhe aprouvesse, lembro de ter visto ali delegacia de polícia, e comumente alguma família, de passagem pela cidade, morando de forma provisória.

Após estendia-se um comprido corredor com piso tabuado, (provavelmente da madeira paparaúba), margeando diversos quartos por trás da área do comércio, culminando em uma enorme  cozinha. No quintal, muito capim verdinho, algumas goiabeiras, um poço no fundo junto a um pé de manga  comprida e  uma mangueira rosa, fruteira constante em todas as outras casas próximas; do outro lado, muitas pedras cheias de limo, denotando o tempo que ali estavam, e  bem rente  ao salão onde fora a quitanda  de tio Ademar, depois utilizado para acondicionar  os materiais do “posto de revenda”, guardada pelos galhos de uma goiabeira prata, o objeto dos desejos de todos os meninos que moravam naqueles  arredores, o pé de ginja, ou no nosso linguajar baixadeiro, acostumado a transformar palavras, simplesmente, a ginjeira.  Única em nossa cidade, a ginja, nome cientifico (prunus cerasus), é uma espécie de cereja, originária de parte da Europa e do sudoeste asiático. Certamente trazida para o distrito de Matinha, à época pertencente a Viana, pelos fundadores da cidade, os Alves Silva, no que diz respeito aos membros da cor branca, portugueses.

Não consegui informações confiáveis sobre como uma fruta, de origem tão distante, conseguiu chegar até nossa cidade, a terra das mangas, o certo é que ela estava lá, com seu sabor agridoce inigualável, a nos desafiar e regalar, com seus frutos vermelhos, cheios de gomos, parecendo uma pitanga, fazendo a alegria da minha geração. Quando começaram a chegar os primeiros exemplares de acerola a Matinha, vi nos frutos uma certa semelhança a ginja, isto apenas na forma, no sabor a distância é imensa. Havia um tráfego intenso e constante na busca desses frutos tão saborosos. Nos arriscávamos a sermos feridos (e muitas vezes, éramos), em restos de cacos de vidros do muro, escorregar no chão limoso, até mesmo cair dos frágeis galhos da ginjeira ou do pé de goiaba prata que adornavam a fruta forasteira com uma cobertura, formando uma espécie de capacete de segurança.

Em toda a minha vida só uma vez vi outro pé de ginja, foi num desses casarões antigos, no Caminho da Boiada, em São Luís, usados como clínicas ou consultórios médicos, que curiosamente, conforme informações dos meus irmãos Carlos Augusto e Luís Augusto (o primeiro filho de Ana Rita, o segundo de Maria de Lola) pertencera a uma irmã da minha avó materna, que migrara de Matinha, passando a morar na ilha do amor. Pus-me a meditar: seria o pé da ginja de Matinha o pai dessa árvore em São Luís, ou vice-versa? Talvez nunca tenha acesso a resposta. Mas carrego uma certeza: esta fruta cuja origem é tão distante, de certo modo conserva em torno de si, um pouco da tradição, regada com sabor e história, dos Amaral/Alves/Silva, e seus descendentes, primeiros moradores brancos de Matinha. Trazidos pelo destino da longínqua e fria Europa, para fixarem-se na inóspita microrregião da Baixada Maranhense.

Guardo na alma essa peculiaridade gustativa inesquecível e inigualável. As brigas pelos frutos, chegando a rolar tapas, as quedas dos galhos da ginjeira, do muro, as incursões a outras partes do domicilio, na busca de diferentes frutas no quintal, ou mesmo por curiosidade, algo bastante comum a fase da idade que vivíamos, que também faziam parte do nosso cotidiano, permanecem indeléveis na minha memória.

*João Carlos da Silva Costa Leite é natural de Matinha (MA); bancário aposentado; presbítero em disponibilidade da IPIB Matinha; membro do Fórum em Defesa da Baixada Maranhense (FDBM); membro fundador da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras (AMCAL), ocupando a Cadeira nº 17; é graduando do Curso de Filosofia da UFMA.

One Comment

  1. Qd criança tinha um pé dessa fruta numa fazenda q pertencia a família Mochel em Bacurituba, eu vivia lá e adorava as compotas q faziam com ela, hj já extinta…
    Gostaria muito da semente para o plantio e quem sabe sentir novamente esse sabor…

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