A crônica do dia: Procuram-se leitores…

Franky Raykar e Daiane Cordeiro

Procuram-se: leitores aficionados, relaxados, entusiasmados, com ou sem experiência, altas e baixas expectativas, triunfantes, escritores, viventes, amantes, ignorantes, em qualquer etapa da vida, desiludidos, céticos, fantasiosos, teóricos, românticos, com mentes brilhantes ou no mais simples seguimento de sua existência, dos que veem aos que não podem ver. Procuram-se, enfim, leitores.

Houve o tempo em que o cidadão despertava na tranquilidade da sua casa, ansioso para ler o jornal do dia, com a mente a trabalhar mais do que o corpo, insaciável por saber dos mais recentes acontecimentos. Houve o tempo em que o cidadão despertava, contrário aos estímulos de agora, que solucionam tudo passivamente, mantendo máquinas pensantes em repouso, guardadas ainda no quarto, mesmo após o amanhecer. Já não se desperta mais como outrora, porque nem mesmo se dorme, ritual que em outros tempos era organizado em etapas, desde o término da leitura do livro de cabeceira até o desligar das luzes, com todos os músculos do corpo no mais profundo estado de relaxamento e a imensa atmosfera de silêncio a cortar as centenas de residências adjacentes.

A vida se tornou uma imensidão de alvoroço caótico em que não se para. Não se freia a mente passiva para ligá-la adiante com a aprazível leitura de um livro na mais confortável poltrona ou na simples rede da varanda de casa. Não se freia o incessante mundo virtual que, a todo tempo, enche de conteúdo infinito e pouco qualificado as pobres mentes, consumidoras incansáveis de produtos disponíveis ao imediato uso de um celular. Aliás, consagrado e indispensável item à sobrevivência humana se fez nos últimos tempos, minimizador de distâncias e de saudades, eficiente meio de comunicação em massa, prático em sua essência, o mundo inteiro presente na palma da mão.

Dispostos em fila os mais brilhantes artifícios da atualidade, sem dúvida essa pequena caixa que armazena o mais importante da vida está entre os objetos mais utilizados por toda a sociedade. Não é por acaso que, diante de tamanha evolução humana, para ele se voltam inúmeras ondas de idolatria, fontes alimentadoras da agitação do cotidiano.

Não se pensa. Não se lê. Não se lê, logo não se pensa. A leitura foi resumida ao simples passar de olhos por redes sociais apelativas, constantes, diárias, que nunca acabam. Não é mais como ler um livro de capa a capa a ser terminado no dia seguinte. Não é como dormir e despertar. Não há começo nem fim. Apenas um meio universal que mantém dentro dele todos os que consomem a vida como ela é, opostos à vida como ela era.

Procuram-se leitores. Sugere-se que, como recompensa, há de ser oferecido um mundo melhor.

Franky Raykar, acadêmico de Enfermagem da UFMA, cristão, flamenguista, original de Matinha-MA, residente em São Luís-MA.

Daiane Cordeiro, acadêmica de Medicina da UFMA, brasiliense, vivendo aventuras em terras ludovicenses, eterna amante da língua portuguesa.

4 respostas para “A crônica do dia: Procuram-se leitores…”

  1. Essa e a evolução do século vinte um que não quer ler um livro de capa e contra capa com na década de setenta hoje a informação está nas palmas das mãos e por isso por falta dessa leitura muinta pessoas , não conseguem fazer um boa redação no Enem ,por conta da facilidade da leitura digital

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